Sempre noite…

Capítulo 3

Muita gente acredita que vampiros só têm o costume de perambular à noite. O pior de tudo é que isso não é mentira, mas também não é totalmente verdade. Mesmo porque, isso vai depender muito do quão cético você é. Mas a grande responsável por esse mito, certamente, são as grandes produções cinematográficas, principalmente as hollywoodianas. Elas cravaram na mente do público que os sanguessugas são avessos ao sol. Isso, graças a um certo Marnau, ao roteirista Henrik Galeen e ao filme deles, “Nosferatu, eine Symphonie des Grauens”.

Entretanto, por muito tempo, mesmo em obras de referência como Drácula, do sempre citado Bram Stocker, vampiros podem, sim, se expor ao sol. Acontece que nas lendas mais antigas, por esses seres serem tratados como espíritos ou mesmo manifestações demoníacas, eles prefeririam a noite por ser este o momento em que as trevas tomam o lugar da luz.

O que poucos param pra pensar é: “lendas são criações feitas pelo próprio homem”. Fantasmas, casas mal-assombradas, maldições e até mesmo deuses e demônios são todos invenções humanas. Basta deixar de acreditar e eles desaparecem. Tenha fé, seja crente, e tudo pode acontecer e ser criado.

Veja o exemplo daqueles três irmãos, os descendestes do grande soldado e do respeitoso Sr. da Biblioteca. E não se esqueçam dos outros três que saíram, cada um pro seu canto, cada um em busca de um objetivo. Aqueles que decidiram transformar a cultura do pai em um negócio mais lucrativo acabaram virando lenda naquelas redondezas. Aqueles que os conheceram, perguntavam-se sobre onde os belos rapazes estariam. A taverna, com o tempo, foi se adaptando junto com o mundo. Passou a usar outras denominações como restaurante, lanchonete, bar…

E aqui voltamos para o começo de toda nossa história. Pois era como um bar de beira de estrada que muita coisa ali mudou, drasticamente. Tudo isso porque vampiros não são surpreendidos facilmente. Na verdade, eles nunca são apanhados de surpresa. Pelo menos, não os vampiros desta história.

Eles possuem todo o charme que você se acostumou a ver nos livros e filmes. Todos são extremamente poderosos. Uns são mais fortes do que os outros, mas isso é definido única e exclusivamente pela experiência e – por que não – vocação. Talvez seja por isso que nem todo mundo pode se tornar um vampiro. É preciso ser competente para isso.

Não existe nenhum tipo de lei no mundo dos vampiros. Eles são inteligentes demais para se prenderem a esse tipo de convenção. Os humanos precisam ser lembrados, por exemplo, de que roubar é errado. Os vampiros, não! Os frágeis mortais precisam ser lembrados que é preciso respeitar os mais velhos. Os vampiros mais velhos são respeitados porque… Oras, por serem mais fortes. Simples assim.

Talvez a única coisa que contraria a falta de leis no mundo dos vampiros é a lei de propriedade. Um vampiro não pode entrar em qualquer propriedade sem ser convidado – porém, isso não significa que eles não podem. Não existe nada mágico que os impeça. Mas a grande maioria respeita essa regra. Vampiros não conseguem notar a presença de outros vampiros. Com o tempo eles aprendem a reconhecer as características, os cheiros. Mas é muito arriscado entrar na casa de um ser mais velho sem pedir permissão, já que quanto mais antigo um vampiro, mais perigoso ele é e mais artimanhas ele terá para manter-se discreto.

Eles se alimentam de sangue, porém, podem comer qualquer outra coisa. No entanto, a comida humana serve apenas para deleite e prazer. Assim como o sexo. Embora, nesse caso, existem aqueles vampiros que também conseguem se fortalecer enquanto fazem amor.

Conforme os anos passam, os vampiros mais velhos aprendem a se alimentar de energia. E isso acontece quase como se fosse o primeiro sugar de sangue, tirando apenas o cheiro. Mas nesse caso a escolha da vítima não pode ser aleatória, já que algumas pessoas não possuem nenhum tipo de energia interessante pra se sugar.

E quanto à energia, pense em coisas como: força, inteligência, vitalidade, virilidade, sensualidade, amor, ódio… Imagine aquela mulher que, apesar de não ser tão linda quanto uma atriz de cinema, possui charme suficiente para atrair o interesse masculino (ou feminino). Pense na criança que o pai não consegue controlar ou naquela que aprende sozinha, aos 8 anos de idade, a tocar a 5ª sinfonia de Mozart.

Todo predador sabe como atrair suas presas. Ele se mostra sedutor ou então meticuloso. E os bons predadores, geralmente, geram bons predadores. Aqueles que não se caracterizam assim são expulsos e tentam seguir suas próprias vidas. Até que um caçador dê cabo deles.

Agora, o quanto disso tudo podemos aplicar na história dos personagens que conhecemos até agora? Quase tudo ou praticamente nada? Bom, você deve concordar: tudo aquilo que não dá em nada, também não gera boas histórias. Podem criar histórias interessantes, mas estão longe de serem as melhores. E pode ter certeza que nessa história tudo é possível. Na verdade, na vida poucas coisas são impossíveis. O problema é que as pessoas sempre acabam olhando apenas para uma direção, uma possibilidade.

E por mais especiais que os vampiros sejam, eles ainda possuem características humanas. Por isso não são imortais, já que eles podem morrer caso sejam atacados por um ser mais forte ou até mesmo por uma pessoa mais corajosa e menos estúpida. Eles vivem por muito tempo. Acredita-se que alguns existam há milênios – desde quando os primeiros homens começaram a surgir e a evoluir.

Aqueles três irmãos existiam há quase dois séculos. Eles eram o tipo de vampiros que aprenderam a se alimentar de emoções. E eles aprenderam poucos anos depois do fechamento da antiga biblioteca e na transformação dela em uma taverna. A primeira experiência aconteceu na noite em que começaram a contar histórias para os clientes do lugar. E como se tivessem sido atingidos por todas as drogas do mundo, ficaram viciados. Mas isso não os impedia de, em determinadas noites, transformarem-se nos vampiros clássicos, alimentando-se do sangue dos freqüentadores (em especial, os baderneiros).

Mas um vampiro nunca mata suas vitimas. Talvez, somente a primeira, por falta de controle e experiência (mas isso é raro, por causa da humanidade que ainda existe dentro dele). E quando isso acontece, o cadáver precisa ser incinerado, para evitar que ele se transforme em alguma outra coisa. Quem é mordido por um vampiro nunca se lembra do que aconteceu. No outro dia, a única sensação é a de cansaço e um extremo calor. Você poderia confundir a experiência com qualquer outra manhã de ressaca, depois de ter ficado de porre na noite passada.

Se a mesma pessoa é atacada freqüentemente pelo mesmo vampiro, com o tempo, ela acaba se transformando em um. Vampiros não atacam a presa de outro vampiro. E isso não é por causa de nenhuma lei e, sim, por cuidado. Ninguém sabe o que faz a transformação acontecer, mas quando uma pessoa é vitima mais de uma ver por um vampiro, o corpo dela se torna tóxico. Talvez, venenoso seja o termo mais correto.

Os três irmãos demoraram a ter suas primeiras crias. Mas eles precisavam delas para cuidar do bar. Eles não podiam confiar isso a um simples humano. Apesar deles adorarem a presença dos clientes, todos não passavam de mero alimento, principalmente, para as garçonetes e barmans, que ainda não tinham aprendido a se alimentar de outra forma além do sangue.

Com o tempo o bar foi aumentando, tanto de tamanho quanto na clientela e, também, no “corpo de funcionários” (se é que podemos chamá-los assim). Mas a clientela não era mais exclusivamente de humanos, de presas. Outros vampiros passaram a conhecer o lugar. A presença deles era tão comum que até mesmo alguns humanos passaram a saber da presença deles. Muitos, inclusive, iam para lá na esperança de se tornar vampiros. As noites de contos evoluíram para peças mais elaboradas de teatro, shows musicais e de dança. Todos, claro, inspirados em obras consagradas da literatura mundial. Chegavam a especular a possibilidade de Shakespeare também ser um vampiro e estar ali, no meio deles.

O dia não é nem um pouco atraente para vampiros, há aqueles que chegam a ficar enojados com o excesso de luz do sol em determinados dias. Principalmente naqueles em que o céu está completamente limpo, sem nenhum sinal de tempo fechado ou chuva. Como os sentidos dele 100% mais alto, assim como o cheiro dos animais e das plantas. Isso os confunde, já que para eles o importante é o barulho e cheiro dos humanos, suas presas eternas. Por isso, durante o dia, todos os vampiros praticamente hibernam e, à noite, exatamente quando o mundo se prepara para ir dormir, eles despertam.

Mas chegou o fim de um dia em que muitos vampiros teriam desejado permanecer hibernando. Havia chegado a noite em que os predadores virariam presas. E se os três irmãos não foram os primeiros vampiros do mundo, seriam eles os responsáveis por trazer a danação a todos os sanguessugas.


Continua aqui.

2 Comments Post a Comment
  1. ” Um vampiro não pode entrar em qualquer propriedade sem ser convidado – isso não significa que eles não podem.”

    Ficou meio estranho aqui… Mas cara que historia fantastica!!!

    Acabei de ler e ja quero saber oq vai acontecer!!!

    parabens pelas reviravoltas bem posicionadas!!!

  2. Dalva says:

    :) Realmente existem pessoas sem nenhuma energia interessante pra se sugar. ;)

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