Gêmeos pródigos…

Capítulo 4

Nos últimos anos do século 19, por volta de 1890, muita gente viu uma crescente industrialização e urbanização de vários países. No Brasil houve também um aumento da imigração européia, que já não podia mais perder tempo com lendas absurdas. A Igreja já não era tão poderosa assim. Na verdade, o poder ainda existia, como sempre, mas a época de caça às bruxas havia terminado há muito tempo.

Acontece que, como diz o velho ditado, “em toda mentira há um fundo de verdade”. Nesses casos, a verdade serve apenas como tempero, mas é desprezada por quem deseja manipular e criar uma boa mentira. O trabalho dos “caçadores de bruxas” não era mais requisitado. Porém, é praticamente impossível para alguém viver anos exercendo qualquer tipo ofício e não ser contaminado de certa forma por ele. E isso era tão forte que muitos caçadores acabavam loucos – ou pelo menos era isso que muitos pensavam.

A era da razão estava começando. Mas aquele fundo de verdade não pode ser deixado de lado. Mentiras apenas ferem, mas podem ser esquecidas. Elas são instrumentos. A verdade é fato, esqueça-a e tenha sérios problemas no futuro. Por isso, muitos caçadores de bruxas não deixaram a profissão (se é que podemos chamar assim). Para as pessoas que conviviam com eles, todas sem exceção achavam que tudo aquilo não passava de um hobby. As exceções pensavam que eles não passavam de loucos.

O dinheiro vinha de outras atividades. Caçadores possuem habilidades muito distintas. Assim como certas pessoas têm a “vocação” para se tornar vampiros, os caçadores também. Os primeiros surgiram graças ao desejo de vingança. A maioria havia perdido algum amigo ou familiar para os noturnos – para muitos deles a palavra vampiro era ridícula demais. Em alguns casos os caçadores viravam protetores de fazendeiros. Alguns, que não se importavam mais em serem discretos, tornavam-se xerifes de pequenas cidades ou vilarejos.

Esse era o meu caso. Um estrangeiro que estava no rastro de uma família de noturnos. Cheguei em terras brasileiras alguns anos depois que a família real portuguesa havia sido banida de volta para a Europa. A república havia sido instaurada em 1889 e era comandada por Marechal Deodoro. Foi nessa época que houve também a separação entre Igreja e Estado no Brasil. Com isso, a laicização dos cemitérios, estabelecida mediante decreto na constituição de 24 de fevereiro de 1891, impedia que a Igreja Católica interferisse na manutenção dos cemitérios. Isso agora passava a ser de responsabilidade secular, ou seja, quem cuidava desde então eram os governos municipais.

Com isso, havia também chegado ao fim as empalações e decapitações de cadáveres. Era assim que os caçadores contratados pela igreja agiam quando descobriam que existia a presença de um vampiro em determinada cidade. Essas ações, que eram praticadas desde a idade das trevas, sobreviveram até aquela época. Na Europa isso ocorreu séculos mais cedo, em uma época que as intervenções da igreja passaram a ser questionadas como verídicas. Muitos desconfiavam que por traz das mutilações existiam outros interesses. Por isso muitos caçadores passaram a procurar guarida em outros países.

A maioria acabou se tornando mercenária, já que os primeiros caçadores sempre foram requisitados somente quando a presença de vampiros começasse a desequilibrar drasticamente a ignorância das pessoas. No meu caso, eu continuei agindo desta forma. Fui morar em uma pequena cidade do interior paulista e me tornei responsável pela “manutenção da ordem natural” da região que viria a ser conhecida como pontal do Paranapanema (como eu sei disso? Bom, não é hora pra contar).

Antes dos conflitos pela posse das terras que dariam origem à cidade de Presidente Prudente começarem, a região era então ocupada por tribos de caiuás, xavantes e caingangs, índios da nação guarani. Como caçadores começam nessa vida muito cedo e, no meu caso, foi aos 10 anos, pude ver muita coisa ali mudar. E depois que houve a decadência das Minas, a corrente migratória da região sul de Minas Gerais para São Paulo aumentou. Muitos fugiam da convocação para as tropas que iriam lutar na guerra do Paraguai. Aquela região parecia promissora e, depois da instituição oficial do município e em 1917, quando eu estava com meus 36 anos, a derrubada das matas foi iniciada e alguém com as minhas habilidades era muito útil na proteção das colônias que se formavam próximas à estrada de ferro que ligava aquele fim de mundo a São Paulo.

Durante os 26 anos que eu passei por ali, nunca havia encontrado nenhum tipo de noturno. E isso se manteve por muito mais tempo. Deu tempo de ver o declínio da produção de café, graças à crise da bolsa de Nova York. Vi a cidade crescer e a se desmembrar em outros municípios. Vi a evolução das casas, dos estabelecimentos públicos e privados. Daí, já beirando os meus 60 anos, quando decidi que estava velho demais e começava achar que imaginara toda aquela história sobre vampiros existirem, encontrei, em minha primeira viagem para a grande capital, aquele lugar.

Era noite! Uma bela noite. Visto de longe, parecia um simples bar de estrada. Mas conforme a distância diminuía, era possível perceber nitidamente que aquela não passava de uma impressão completamente errada. Até mesmo a placa amarela, pendurada acima de um toldo, com letras vermelhas dizendo BIBLIOTECA, poderia fazê-lo se enganar. Embaixo do toldo, também vermelho, havia uma espécie de varanda. Ao fundo, uma porta de vidro fumê, que parecia ser a entrada. Logo no início da varanda, posicionada atrás de um elegante púlpito, havia uma garota que faria qualquer velho como eu desejar ser pelo menos um século mais novo.

À frente do púlpito da garota havia uma fila de pessoas. O tamanho era considerável. A maioria eram homens e, aparentemente, solteiros. Eu já havia estacionado o carro na área propícia para isso que ficava bem à frente da “BIBLIOTECA”, que agora já se percebia nitidamente que era uma espécie de pub. Vi alguns casais se aproximarem da entrada e serem levados para dentro do estabelecimento sem precisar entrar na tal fila. Isso me deixou confuso, mas resolvi me aproximar da fila a fim de me informar com a garota. Quando eu cheguei a cerca de um metro de distância ela me olhou. Aquilo foi desconcertante, pois fiquei alguns segundos observando primeiro os cabelos e, depois, os olhos dela. O ruivo dos cabelos combinavam muito bem com os olhos de tonalidade castanho-mogno. A pele levemente clara realçava cada um desses aspectos.

Não tive tempo de perguntar nada. Um rapaz havia se aproximado e se posicionado ao lado dela. Se eu havia ficado envergonhado em pensar tudo aquilo que pensei em fazer com aquela menina – o que parecia impossível até mesmo para mim, devido a idade em que eu chegara –, fiquei completamente desolado com a beleza do garoto. Os dois não pareciam ter muito mais que 20 anos. Próximos como estavam, pareciam perfeitos um para o outro. Fiquei desconsertado em perder toda a falsa sensação de virilidade que havia tido momentos antes. Eu não teria chances nenhuma em ganhar aquela contenda.

Perdido nesses pensamentos, nem percebi a mão do rapaz posicionada à minha frente, chamando-me para entrar no pub. Pensei que deveria entra na fila.
– Eu não preciso pegar essa fila? – perguntei aos dois e me arrependi de ter feito isso. Aquilo não era uma simples voz. Nem o mar mais selvagem em um dia de lua cheia seria tão imponente. Foi o rapaz quem respondeu:
– Fique tranqüilo! É sempre um prazer receber novos visitantes à BIBLIOTECA dos irmãos Aarón. Não se preocupe com eles, deixe que Adina faça isso.
– Hoje é a nossa noite de contos. Deve começar dentro de meia hora. Dá tempo pra você experimentar alguns dos nossos livros! – Se a voz dele era imponente, a de Adina (agora conhecia o nome dela e, certamente, nunca mais esqueceria) era quase indecente, de tão sedutora. Eu, bom… Eu não disse mais nada. Para mim bastava ficar ali fora, não teria problema nenhum em esperar ali na fila.

Talvez seja por isso que aquela fila existia ali. Se eu já me sentia angustiado em ter de deixar de olhá-la, imagine aqueles garotos, que não deviam ter muito mais que 18 ou 20 anos? Quem sabe eles estavam ali para tentar a sorte. E mesmo que estava quase explícito que Adina não dava a mínima para esse detalhe, eu não teria chances de competir com nenhum deles. Segui o rapaz e entrei na biblioteca-pub (que era exatamente isso).

Lá dentro, ao lado do bar central, mesas se espalhavam ao redor e, nas paredes, biombos de madeira acomodavam os clientes em confortáveis poltronas embutidas em formato de L ou U. Uma mesa ora redonda, ora quadrada (isso variava de biombo para biombo) acomodava os pedidos. Estantes com livros foram colocadas em locais estratégicos: em prateleiras embaixo da bancada do bar ou ao lado dos biombos de cada cliente, que ficava à vontade para escolher o livro que quisesse. Mais ao fundo, passando pela bancada do bar, havia um palco. Nele tinham arrumado em um dos cantos um belo piano de calda e outros instrumentos.

No meio do palco havia 3 poltronas, que mais pareciam tronos. A do meio era nitidamente dourada, a que ficava do lado esquerdo era de bronze e a do lado direito, prata. Todas possuíam almofadas vermelhas no assento e encosto. E foi em uma mesa ali perto que o rapaz que me guiava ofereceu-me para sentar. Logo em seguida, estendeu para mim um menu. Pensei em argumentar que não precisaria daquilo, já que minha intenção não era permanecer ali por muito tempo. Mas desisti dessa idéia. A viagem pode esperar, aquilo ali precisava de toda a minha atenção.

A minha alma de caçador de bruxas estava despertando. Os sentimentos que aquele lugar afloravam em mim eu já havia sentido antes. Não naquelas proporções, óbvio. Por isso, talvez, eu demorei tanto para perceber onde eu estava. Passei a minha juventude procurando por eles. Disseram me que procurasse entre os índios ou cemitérios. Sempre as velhas tradições, como se as coisas ruins não evoluíssem junto com a humanidade. E caçadores conhecem o mal bem cedo. Há até mesmo aqueles que vêem enquanto ainda estão no ventre, pelos olhos e coração da mãe. Nesses casos, o caçador nasce órfão. A mãe não resiste, pois elas carregam algo muito valioso no ventre. Elas são os alvos preferidos dos vampiros, principalmente as que estão na primeira gravidez e, mais especiais ainda, são as que darão à luz a um futuro caçador.

Claro, os vampiros não sabem disso. Na verdade, eu nunca soube de um vampiro que conhecesse a existência de caçadores. Pelo menos não dos reais. Aqueles pulhas formados pela igreja (os famosos mercenários), esses eram meros carniceiros. Treinados por caçadores reais que já não conseguiam mais se sustentar de outra forma a não ser com o dinheiro pago pela igreja. Mas eles também serviam para esconder a existência dos caçadores reais, nascidos para isso.

Assim, para os vampiros, todos não passavam de meros humanos. Mas os caçadores de verdade, mesmo enferrujados e desiludidos como eu, acordavam quando estavam na presença de noturnos. E, como eles, nós também sabíamos manter a discrição. Por isso, decidi ficar ali, pois percebi que seria naquele palco que eu finalmente encontraria os 3 membros da família de noturnos que eu tanto procurei. O trono de cada um deles estava ali, na minha frente.

Percebi a iluminação da biblioteca-pub cair suavemente. Algumas luzes foram apagadas e o palco ganhou mais destaque. Do bar, um noturno (agora, a presença de todos eles estava bem nítida para mim) pediu a atenção de todos:
– Olá! Bem-vindos. Espero que estejam gostando desse início de noite. Hoje os irmãos Aaron representarão Macbeth, de William Shakespeare. – Ao terminar de falar, todos ouviram os trovões que dariam início à tragédia. O som foi produzido pelos músicos que se posicionaram sem que ninguém percebesse, enquanto o vampiro do bar falava.

Eu esperei para ver quem seriam as três bruxas, mas o estrondo causado pelo belo corpo de Adina e do rapaz que me recebera ao baterem na bancada do bar (ela) e na prateleira de bebidas (ele) na parte interior, deixou todo mundo em silêncio. Em seguida – eu já estava de pé – dois rapazes entraram pela entrada principal do pub. Ambos estavam vestidos com sobretudos pretos idênticos, assim como o rosto de cada um deles.

Eles eram gêmeos.


Leia o capítulo 5 aqui.

One Comments Post a Comment
  1. eduarda says:

    nossa aqui tem muita coisa interresante achei surpe legal

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