Capítulo final
A vida é engraçada. Você pode vivê-la da forma mais simples, observando-a passar diante dos seus olhos calma e corriqueiramente. Muitas pessoas nascem, crescem, relacionam-se, entram em desavenças e um dia vão morrer. Muitos acabam se queixando de que poderia ter feito mais, aproveitado melhor aqueles momentos de prazer. Outras procuram ser mais do que podem realmente ser.
Não que ser uma pessoa melhor seja impossível, porém, a pressa acaba com todas as chances disso realmente acontecer. Elas atropelam fatores importantes, como o de conhecer as próprias capacidades. E pra ser ainda mais preciso e fazer você entender meu ponto de vista diria: o ser humano nunca irá reconhecer as próprias capacidades. Por isso, arrisco dizer, os deuses e superstições existem: para tentar explicar ou mesmo camuflar aquilo que não parece ser racional.
Percebi isso ali no hall da BIBLIOTECA. A tensão era enorme e eu que nunca acreditei religião pensei estar diante de verdadeiros demônios. Nunca havia deparado vampiros tão poderosos, meu coração estava no limite dele. Mas em um instante uma mão segurou meu ombro esquerdo e senti-me amparado por um anjo. Os quatro irmão, agora, estavam se encarando: aqueles que eram os maiores predadores da humanidade, no palco; aqueles que poderiam ser a grande oportunidade de salvação da humanidade, a meio caminho do palco, concentrados.
Os dois vampiros que, pela solidez dos negócios no pub, deveriam ser considerados sinônimo de gentileza, agora, mostravam-se como verdadeiras feras a ponto de atacar a qualquer movimento ameaçador. Não consegui entender aquela reação já que, como já disse: vampiros antigos não se surpreendem facilmente. Isso só acontece se eles sentirem um grande perigo. Os noturnos temem mais a morte do que as pessoas, já que não sabem pra onde suas almas irão. Eles acreditam em alma? Bom, eles são vampiros, logo, por que deixar de acreditar em outras coisas aparentemente surreais?
Pior que, imagino, eles devam acreditar somente em inferno por acreditarem piamente que foram rebaixados a status de seres das trevas, algozes dos filhos de Deus. Muitos caçadores acreditam que é o diabo o pai dos vampiros. Em algumas mitologias, vampiros seriam os filhos de Lilith, a primeira esposa de Adão. Lilith teria sido feita por deus como o homem, do barro. Por isso, ela exigia ser tratada como igual e fora banida do paraíso por não aceitar ser submissa a Adão.
Chegando no inferno, Lilith se relaciona com anjos caídos e dá origem aos primeiros vampiros. Mas isso, claro, são meras suposições. Nem mesmo os vampiros sabem realmente da própria origem (acho que essa era a maior semelhança entre eles e nós, humanos — bom, eu pensava isso até aquele dia). Assim como os mortais, noturnos possuiam crenças de acordo com sua região de origem. Alguns, por exemplo, contam histórias da mitologia egípcia, envolvendo oferendas de sangue de faraós a deuses. Mas o que importa mesmo é que vampiros existem e são predadores diretos dos seres humanos.
No entanto, até então nunca me passara pela cabeça que vampiros também pudessem ser presas. Nós os caçavamos, mas fazíamos isso muito mal (mesmo que nenhum caçador tenha coragem de admitir uma coisa dessa). E naquela noite eu havia me deparado com a situação mais temida por quem segue essa vida. Eu estava no meio de uma batalha da qual não poderia fazer parte e, pra piorar, eu estava com medo.
— Ivan e Augusto. Se ainda existe algum pingo de humanidade em vocês, timploramos, não resistam. Ainda pode haver salvação para vocês — disse o rapaz que havia eu agora sabia se chamar Cauê. Do outro lado, um quase sibilar saiu da garganta de um dos irmãos vampiro. Já o outro estava imóvel, concentrado nos dois irmãos que estavam um pouco mais atras de mim.
— Queremos recuperar nossa família, salvá-la finalmente dessa maldição. Descobrimos a verdade. Boa parte dela, pelo menos. Mas muito mais do que suficiente para exterminar o vírus do sangue.
Vírus do sangue? Será? Não poderia causar tamanha transformação. Do que aqueles dois estavam falando? Meu desespero aumentava, o contrário acontecia com minhas esperanças. Ao invés de encontrar a nossa salvação contra os vampiros, havia encontrado outros loucos, tão poderosos quanto vampiros?
Mais uma vez, uma mão, dessa vez às minhas costas, fez-me alcamar. Só que dessa vez eu também fiquei envergonhado pelo descontrole infantil. Outro sentimento que não durou muito.
— Não há nada de errado em sentir medo, Ondrej. Apenas o controle e descobrirá uma excelente arma. Junte-a com esperança e bom senso para descobrir a real coragem. Você também pode nos ajudar. Aqueles dois não são mais do que você ou qualquer outra pessoa.
Claro que isso era uma baboseira. Oras, eles eram vampiros. Serem quase imortais, dotados de dons expetaculares.
— Mas se esses dons existem neles, podem existir em você também. — Eu fiquei ainda mais confuso, mais ainda por aquilo não ser exatamente um diálogo. Eles definitivamente sabiam exatamente o que eu estava pensando.
— Então vocês descobriram o que tanto procuravam? — Disse o irmão vampiro, aquele parecia ser o mais pensativo da dupla.
— Sim, Augusto. Nós encontramos a alternativa e acreditamos que podemos aplicá-la em vocês, já que somos iguais e…
— Besteira. — Interrompeu o outro noturno, que agora sabia que se chamava Ivan. Ele continuou:
— Não vamos trocar uma maldição por outra e ficar sozinhos. Vocês não são nada, apenas voltaram pra tentar provar o quão patéticos são os humanos. Na verdade, se conseguiram realmente encontrar as respostas que procuravam, tornaram-se superiores até mesmo à nação vampira, vocês provaram que continuam patéticos. Defensores de meros mortais, de gado, comida.
— Você fala como se não fosse humano. Mas está errado se pensa assim. Vampiros são uma evolução mal acabada. O que precisam é de treinamento e controle. Você nem imaginam as possibilidades… — Caled fora interrompido mais uma vez. Agora, violentamente. O movimento do irmão vampiro foi rapido demais, era inacreditável. Só foi possível ver o borrão passar pelos meus olhos e o deslocar do vento. Caled foi atingido e arremessado por cima do bar, caindo do outro lado em cima de mesas e destruindo cadeiras.
Algumas pessoas, que ainda estavam ali (tinha até me esquecido delas) foram atingidas. Alguns burros conseguiram desviar e dois noturnos se revelaram mostrando os dentes e sibilando. Todos estavam admirados, mas não pelo mesmo motivo que eu.
Enquanto o velho Venceslau Ondrej se concentrava no ferimento deixado em seu braço por Ivan. Ele só começou a sentir a dor segundos depois do ataque contra Caled. O corte era profundo e a dor começava, forte. A mesma chance não foi dada ao vampiro e era para ele que todas as atenções estavam voltadas. Na verdade, as pessoas (e agora eu) olhavam para a linha vermelha que se formara como um colar em volta do pescoço de Ivan.
Assim que o corpo do vampiro teve tempo pra registrar os danos, o demônio entrou em um processo fantástico de deteriorização. Tudo não durou mais que dez segundos e o noturno se tranformara em pó. Só restaram intactas as roupas. Voltei-me para Cauê, que agora estava sentado calmamente e com ar de completo desdém para a situação. E, mais uma vez, como se tivesse lido minha mente:
— Eu avisei ao Caleb. Mas meu irmão nunca deixará de tentar, mesmo quando o assunto são vampiros. Eu também fui assim um dia, sabe? Mas esses bichos são como mendigos que se acostumam com as ruas. Eles temem perder a liberdade, mesmo sabendo que existem melhores opções. Então, só nos resta fazer a limpeza e proteger as pessoas inocentes.
Ao ouvir essas palavras, voltei para onde deveriam estar o outro irmão, flanqueado pelos 5 vampiros músicos. Outro choque. Vi algo que conseguiu superar os acontecimentos até aquele momento: Caled, que deveria estar inconsciente do outro lado do bar, segurava o irmão vampiro que ainda estava vivo pelos ombro. Augustos tentou se desvencilhar, mas não conseguiu se mover centímetro algum. Os outros vampiros? Estavam espalhados e mortos próximos ao palco.
Cauê decidiu falar:
— Irei ajudar a consciência de meu irmão. Aqueles aqui dentro que quiserem se conhecer melhor, em busca da salvação da própria e toda humanidade, peço que nos sigam. Quem recusar terá o mesmo destino dado aos vampiros mortos nesse local.
Os burros se olharam. Depois, voltaram-se para o único vampiro que restava. Ele havia se rendido na metade das palavras do misterioso rapaz. Agora estava caído, ajoelhado e tremendo. Eu nunca presencei algo tão patético da parte de um vampiro. Isso deveria me deixar aliviado, mas ainda me incomodava o fato dele continuar vivo.
Dessa vez, quem falou foi Caleb:
— Ondrej, assim como você não deseja a morte de uma pessoa, veja vampiros como apenas uma deformação da humanidade. Eles são meras criaturas encantadas e deslumbradas pelo poder que acham ter recebido de alguma divindade das trevas.
“Isso, claro, não passa de superstição. Quando vimos nosso pai ser cortejado por aquela criatura, juramos vingança. E no momento em que a conseguimos, percebemos nos segundos em que conseguimos ver o rosto dela, alívio.
Você, Ondrej, é um caçador. Possui habilidades para identificar aquilo que caça. Mesmo esses patéticos burros conseguem suas habilidades não por causa do cortejo de um vampiro. Ninguém se transforma bebendo sangue daqueles que você chama de noturnos. A transformação ocorre porque alguém, há muito tempo, descobriu que o ser humano havia se afastado dos próprios instintos.
Mas como ele viveu em uma época bárbara, reencontrou parte da evolução humana, sentiu-se maravilhado e deixou-se levar pelo poder. Ele se virou contra a própria humanidade e começou uma campanha para destruí-la. Ele já não existe mais. Sucumbiu nas mão do primeiro de nós: um homem, que seria simples se não fossem suas habilidades.
Nós fomos em busca dele quando saímos desta nossa casa amaldiçoada. Foi ele que nos achou e ensinou que vampiros são humanos. Se o corpo deles pode fazer o que faz é porque foi projetado para isso. Basta apenas disciplina, concentração e a humanidade se mostra de verdade.
E se para isso é preciso dar uma forcinha, da mesma forma que vampiros têm poder pra transformar pessoas em monstros, nós também temos para evoluir esses monstros em humanos melhores. Mas como o princípio disso tudo é proteger as pessoas, nós damos a todos a opção de escolher.
Continuem suas vidas normais ou evoluam conosco. Mas se decidirem permanecer como monstros, serão caçados. E dessa vez, por forças que elevam a humanidade a patamares inimagináveis.”
E foi isso que aconteceu. Muitos, inclusive eu, ficaram deslumbrados com a possibilidade de obter aquelas habilidades sem precisar perder a humanidade. Sem a sede, sem as mortes. Primeiro, tivemos de assistir a recuperação de Augusto. Depois, foi a vez de todos aprenderem a evoluir.
Nos tornamos longevos, como os vampiros. Por isso, conto-lhes essa história nos dias atuais. Publico esse livro justamente por termos decidido que era hora de revelar a humanidade para a própria humanidade. Muitos de vocês vão pensar que isso é mera ficção; o que não é nada ruim.
Os vampiros não deixaram de existir. Mas muitos se escondem, por medo de nós. Continuaremos a caçá-los e, se possível, a transformá-los. Mas fique tranquilo, todos estão seguros agora.













[...] Derrocada… [...]