Capítulo 5
Eu olhei para fora do pub. A fila de rapazes que cortejavam Adina já não existia mais. Alguns deles continuavam por ali, disperços. Um pequeno grupo observava na parte de fora, próximo à porta de entrada da BIBLIOTECA. E metade das pessoas que estavam naquele bar olhava para o rapaz morto, caído de forma vexatória na frente da bancada do bar. Outra metade via a decadência do corpo lindo de Adina mergulhado em uma poça de sangue criada pelos restos de vidro e garrafras quebras que caíram sobre ela.
Vampiros recém-criados morrem como qualquer pessoa. Se eles são descobertos logo nos primeiros dias de vida, são extremamente ferozes e chegam a ser tão fortes quanto aos noturnos mais antigos. Porém, toda essa força se dá ao instinto de predador recém adquirido. As novas habilidades que precisam ser desenvolvidas também precisam competir com o corpo humano que vai morrendo aos poucos. A fome é maior, logo, o consumo de sangue também é e isso torna as crias realmente imprevisíveis e poderosas.
Adina não era uma noturna recém-criada, mas não devia ter sido transformada há mais de um ano. Eu pude perceber isso facilmente por ser um caçador experiente. Mas a morte de um vampiro não passa desapercebida por humanos normais. Somente a de vampiros com poucos mêses de transformação. Seja lá o que dá força e novas habilidades aos vampiros também mantém o corpo deles preservado. O envelhecimento acontece, porém, é muito mais lento. Na verdade, o certo seria chamar de apodrecimento ou deteriorização.
Quando um vampiro morre, o poder que o mantém preservado abandona o corpo, que começa a se decompor normalmente, como acontece com qualquer ser humano. E se o monstro viver por muito tempo, esse processo pode acontecer quase instantâneamente. Eles literalmente viram pó. O que não acontece com os vampiros mais jovens, porém, os corpos deles ficam deformados mais ou menos de acordo com o tempo em que viveram como sanguessugas. Se você tivesse visto Adina, teria compreendido melhor.
Ela estava cadavérica, como se coveiros tivessem acabado de exumá-la de um túmulo qualquer. Já não era mais possível nem imaginar que aquela coisa era uma bela garota que atraia o olhar até mesmo das esposas dos clientes daquele lugar. Atraira até mesmo a atenção daquele velho caçador de vampiros, agora com vergonha por não ter percebido onde estava se metendo. O terror daquela cena era tão grande que muitos tinham se esquecido dos dois rapazes que haviam provocado aquilo.
Olhá-los me deixou ainda mais preocupado. Um bom caçador deveria saber quando um vampiro estava presente em um local. Mais ainda, não deveria estar desprotegido em um lugar repleto deles. Pior, não deveria duvidar que alguém capaz de matar dois jovens vampiros cara-a-cara e sem usar nenhuma arma também não fosse um vampiro. Mas eu não via traço nenhum de que aqueles dois irmãos (isso eu pude constatar, já que eles eram idênticos) pudessem ser noturnos.
Mesmo que eu tenha me distraído com a beleza de Adina e a imponência do rapaz que me recebeu, ainda assim senti algo diferente. Foi isso que começou a despertar o velho instinto de caçador que vive dentro de mim. Eu sabia que aquele lugar era um reduto de noturnos recém-criados e que os criadores estavam por perto. E mais ainda, sabia que o pai daqueles dois noturnos eram os donos da BIBLIOTECA e estariam ali na minha frente, interpretando Macbeth, se todo o espetáculo não tivesse sido interrompido pelos dois seres que, naquele momento, olhavam para mim.
Eles pareciam simples humanos. Eu podia sentir a presença de vampiros naquele lugar. Mas tinha certeza de que aqueles dois gêmeos não eram. No entanto, a precaução me fez posicionar minha mão direita no largo bolso direito do meu casaco, onde eu guardava minha arma (um revólver patético de 6 tiros). Uma reação dessas contra um vampiro seria muita burrice. Porém, como eu disse, aqueles dois não eram vampiros. No entanto, pareciam extremamente perigosos. Só que contra humanos aquela simples arma viria a calhar.
Percebi, então, que eles não estavam olhando para mim. Mas para o palco às minhas costas. O olho do irmão que estava mais à frente pareceu escurecer. O outro irmão que o seguia agora se afastava e ia em direção ao palco. Os músicos ainda permaneciam ali, sem demonstrar um pingo de ansiedade. Certamente eram vampiros há algum tempo e esses nem sempre se impressionam facilmente. Ao todo, contei 5 deles.
E ao final da minha contagem mental, um disparo foi ouvido. Não era da minha arma, mas do rifle que o barman escondia embaixo da bancada do bar. A ponta da arma agora estava apontada para o irmão que estava mais perto do palco.
Ou estaria apontada para ele se o rapaz ainda estivesse onde deveria estar e não (impossivelmente) posicionado centímetros atrás do barman. Demorou alguns segundos para o atirador perceber e processar o que acabara de acontecer. Na verdade, foi assim com todo mundo ali, inclusive para os músicos, que se levantaram e avançaram alguns passos até ficarem no limite do palco. O único que não pareceu surpreso foi o outro irmão, que passara a olhar a cena com ar de divertimento (mudando rapidamente para um certo tédio).
O barman ainda era humano, mas estava infectado. Eu podia apostar que mais alguns meses como vítima do vampiro que o estava cortejando e ele se tornaria um. Percebi isso pela agilidade dele em retomar a mira contra o misterioso invasor que o havia surpreendido. Agilidade que seria magnífica se a do outro rapaz não fosse expetacular. Em uma reação mais rápida do que um piscar de olhos, a ponta do rifle agora estava apontada para mim, atravessando o peitoral e perfurando as costas do barman.
O irmão que observava apenas suspirou. Algumas mulheres que estavam ali presentes deram um grito tímido, mas histérico. E isso pareceu despertar a noção de perigo de outras pessoas, que passaram a se apressar e a se acotovelar em busca da saída. Nenhum deles foi impedido. Eles não provocaram nenhum tipo de reação nos gêmeos. Eu deveria ter saído também, para planejar. Essa é a reação que todos os caçadores aprendem a nunca negar. Porém, estava claro que eu não era o alvo da atenção deles. Os dois procuravam pelos donos daquele lugar.
Perguntei-me se eles também eram caçadores de vampiros. Talvez fossem dampyrs, os filhos de vampiros, nascidos da relação carnal entre um noturno e um ser humano. Pra ser mais exato, do relacionamento entre um vampiro macho e uma mulher humana. Esses seres não são nem vampiros e nem humanos. Eles podem possuir as mesmas habilidades dos vampiros, porém, nenhuma das fraquezas (o contrário também pode acontececer, mas esses não duram mais do que algumas poucas e sofridas semanas).
Dampyrs também possuem uma capacidade incrível de detectar vampiros. Eles são como cães farejadores. Percebem até quem está para se tornar um vampiro. Mas o grande problema é que nunca alguém sequer ficou sabendo da presença de um desses seres em nenhuma parte do mundo. Eles são mais do que lendas. As histórias vão além dos mítos. São personagens de contos de fadas contados pelos caçadores mais velhos aos mais jovens. Não são mais do que a nossa esperança de que houvesse algo no mundo mais poderoso do que os perfeitos predadores da raça humana.
Por isso, pensar que logo dois dampyrs estavam ali naquele pub, na minha frente, era tão absurdo quanto acreditar que Caim seja o primeiro vampiro. No entanto, era a explicação mais plausível. Apeguei-me a essa esperança. Eu queria acreditar que finalmente a raça humana havia encontrado aliados nessa discreta, porém mortal, batalha.
— Eu sou Venceslau Ondrej. Sou um viajante pego no meio desta contenda que não me diz respeito. Mas diante de tantas cabeças caídas, peço educadamente que se identifiquem. — Se eles fossem caçadores, iriam reconhecer o cumprimento. Se não fossem, pelo menos eu saberia que eles também não eram vampiros.
Eu até contava com isso, pois assim a possibilidade de eu ser a primeira pessoa a descobrir que dampyrs eram reais aumentariam (mesmo eu não sabendo como eles poderiam reagir à presença de um humano que tivesse coragem suficiente para confrontá-los). Aguardei a resposta, o que surpreendentemente não demorou muito para acontecer:
— Nós não somos Dampyrs, caçador de vampiros. Também não somos caçadores e muito menos vampiros. Mas fique tranquüilo quanto às suas esperanças e temores. Somos seus aliados.
Aquilo, sem dúvida, foi uma surpresa. “Eles haviam deduzido o que eu estava pensando ou simplesmente leram a minha mente?”, perguntei-me, confuso e apavorado.
— Nem uma coisa, nem outra, Ondrej. Nós simplesmente dissemos aquilo que você precisava ter como resposta. Mas ao fazermos isso, como não somos estúpidos, podemos perceber quais são as perguntas.
– Mas, irmão, se é isso mesmo, então podemos concordar que a primeira opção que Venceslau nos deu é a mais correta. Afinal de contas, analizando a resposta, deduzimos a pergunta! — Disse o outro irmão, aquele que eu inacreditavelmente havia ignorado e que, naquele instante, estava há um palmo distante de mim.
— Você é um bom homem, Ondrej. Não deveria estar aqui. Suas habilidades não serão muito úteis agora. Mas se quiser observar, poderá aprender alguma coisa. — Continuou o irmão que estava mais próximo. — A propósito, meu nome é Caled e estou aqui para recuperar meu sobrenome. Ou melhor, estamos aqui para isso. Aquele ali é meu irmão, Cauê.
— E o que são vocês? Como conseguiram dominar um burro tão facilmente? — Burro é como os caçadores chamam as vítimas conscientes de vampiros. O que era o caso do Barman. Existem muitas pessoas e até mesmo mercenários contratados pela igreja que acabam ou acabaram se voltando para o lado do inimigo. É a velha ganância humana por poder e imortalidade.
— Agora não temos tempo para explicações. Estamos aqui para matar os dois vampiros que são donos desse lugar e que também foram nossos irmãos um. Uma triste missão, mas se eles não tivessem roubado tantas vidas, poderíamos tentar salvá-los. Mas eles se revelaram monstros encantadores e traidores da humanidade.
Ao ouvir isso, meus olhos, mais uma vez, ficaram arregalados. Definitivamente, aquela noite seria muito longa.
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Final aqui.













[...] Dampyrs? [...]
Cramba Johnny! Tem muita coisa para acontecer hein!!!! quero saber o q vai acontecer nessa noite do “sortudo” caçador!
Só uma coisa: aqui faltou um “L” em “E ao final da minha contagem menta”
De resto, parabens! lance logo os proximos capitulos que eu to ancioso para descobrir mais ^^