Capítulo 2
Os bebês nasceram normalmente, mas a mãe não resistiu. Ninguém que tivesse vivido por ali naquela época acreditaria no que viram. Eles nunca imaginaram que seis crianças poderiam ser geradas por uma única mulher, durante uma única gravidez.
Era tão difícil acreditar que até mesmo algumas pessoas que não tinham muita amizade com o Sr. da Biblioteca, muito menos com a mulher que ele tomara como companheira, achavam que existia alguma armação ali. Mas quem convivia de perto com a rotina do casal não tinha dúvida.
As mulheres até ficaram atraídas ainda mais pelo Sr. da Biblioteca. Na certa ele deveria ser um bom companheiro, principalmente naquelas noites que o casamento delas já não conseguia mais esquentar. Algumas até se sentiram tentadas, principalmente depois dele ter ficado viúvo, mas a responsabilidade de criar os seis filhos da outra mulher dele esfriava o assanhamento.
Outra coisa muito estranha aconteceu com as crianças que viviam por ali. Elas nunca mais voltavam correndo para casa assustadas com o que viam à noite, pela propriedade em que ficava a biblioteca. Os pais achavam que isso se devia ao fato dos filhos estarem crescendo. Mas achavam isso, é claro, por eles (os adultos) não acreditarem em vampiros.
Na verdade, nem as crianças sabiam ao certo do que se tratavam os vultos que viam ou dos olhos vermelhos e flutuantes – que juravam tê-las encarado por uma janela ou copa de alguma das árvores próximas dali. Para elas, os vultos eram fantasmas, espíritos atormentados por uma morte violenta. Bom… elas não estavam de todo erradas, afinal de contas, isso também faz parte das lendas que contam sobre como surgem os vampiros.
Mas aqueles vultos haviam desaparecido. Nem mesmo os seis filhos do Sr. da Biblioteca chegaram a ver alguma coisa. Nadinha de nada. Eles cresceram e passaram a cuidar dos negócios do pai, que os educara perfeitamente bem. Todos eram crianças excepcionais, nunca davam problemas. Enturmavam-se muito bem entre as crianças da vizinhança e ficaram adultos junto com elas.
Três deles resolveram conhecer outros lugares, estudar em escolas de renome, assim que os primeiros fios de barba começaram a nascer. Dois deles resolveram trabalhar em algo mais lucrativo do que manter uma biblioteca. O irmão que sobrara só se preocupava com a saúde do pai.
Mas um dia a preocupação foi trocada pela decepção, quando toda dedicação se transformou em lágrimas no momento em que o Sr. da Biblioteca deixou esse mundo. Porém, ele parecia feliz com o desenvolvimento dos filhos e não se importava com o destino que eles dariam para a propriedade. Agora tudo era deles e eles poderiam fazer o que bem entendessem com ela.
E os três filhos começaram a trabalhar em algo mais chamativo, que pudesse atrair um público maior do que o lado intelectual da cidade. Acho que não seria apropriado chamar aquilo de um bar, mas sim de uma bela taverna. Os livros ainda estavam por ali, mas rearranjados de forma a dar espaço para as mesas e clientes.
E como a cultura não é algo que se despreze com facilidade, os três irmãos resolveram inovar. Eles escolhiam as noites das sextas-feiras para contar histórias. Primeiro eles começaram com os romances, para atrair as mulheres e isso, logo, foi de interesse do público masculino das redondezas. Em outros dias, eram escolhidas histórias sobre as grandes guerras, com extrema violência e pura testosterona.
Cada história era contada por um dos irmãos. Eles procuravam não exagerar, mas sempre estavam vestidos apropriadamente para cada história. Sempre com elegância, coisa que eles tinham de sobra. O poder de atração dos três superava até mesmo o do melhor orador da nossa época. E eram verdadeiramente belos, de fazer com que depois da primeira noite de histórias as mulheres desejassem que cada um deles deixasse uma parte da trama para ser contada só para elas, em outro lugar bem mais reservado.
Já os homens ficavam intimidados com a beleza dos três. Mas a forma como eles contavam histórias superava qualquer tipo de ciúme. Na verdade, a forma vigorosa que eles utilizavam para narrar os contos de bravura, deixava-os ainda mais inspirados. E isso agrava muito às esposas, quando eles voltavam para casa.
A taverna se tornou viciante para todos os que colocavam os pés ali pela primeira vez. O tempo passava e a frequência aumentava cada vez mais. Novas reformas foram necessárias, mas com o tempo foi preciso restringir a entrada de algumas pessoas. O movimento diminuía nos dias em que as histórias não eram contadas, principalmente naqueles em que nenhum dos irmãos estava presente. Isso porque, agora, existiam outras pessoas trabalhando ali para servir os clientes.
Mas como os três faziam questão de que pelo menos um deles aparecesse no local para dar atenção aos frequentadores, o movimento ainda era intenso. E com o tempo as pessoas começaram a se sentir confortáveis até mesmo com os funcionários da taverna. Eles pareciam tão intensos quanto os donos do lugar, desde o barman até aquela que você poderia considerar como a mais insignificante garçonete.
E falando nelas, eu poderia lhes dizer que mesmo se os irmãos parassem de fazer as noites de contos, muitos homens estariam ali somente para vê-las. Alguns até esqueciam de pedir alguma coisa, mas se lembravam (como que por encanto) quando uma delas se aproximava para saber qual seria o pedido. Muitos não tinham vontade de pedir absolutamente nada, mas nunca resistiam. Sentiam vergonha, um tremendo desconforto, por não pedir nada.
Em alguns dias os ânimos ficavam mais quentes. Mas isso só acontecia com aqueles que chegavam ali pela primeira vez. Como no mundo todo sempre existem aquelas pessoas mais atiradas e desrespeitosas, algumas confusões sempre acabam por se formar. Porém, ali na taverna, nunca iam pra frente e eram quase sempre resolvidas pelas próprias garçonetes. Em alguns casos mais extremos, porém, muito raros, um dos irmãos aparecia para interferir.
Não existiam seguranças, a maioria dos funcionários eram mulheres, além do barman. Que também não eram muitos. Mas quando os irmãos precisavam interferir, os clientes indesejados saiam rapidamente e nunca mais apareciam por ali. E como a presença de qualquer um dos irmãos chamava muita atenção, nessas ocasiões, eles sempre terminavam olhando para os clientes e dizendo:
“Não se incomodem com isso, nunca deixaremos as maçãs podres infectarem vocês. Alimentem-se, voltem a se divertir. Satisfaçam-nos.”
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