… por Denise Letícia
Desde meus primeiros dias de vida, tive dentro de mim a sensação de ser uma pessoa diferente das outras. Uma alma torturada, penada, infeliz. E este sofrimento se exacerba quando estou como hoje: nostálgica. E quando estou nostálgica, torno-me extremamente autobiográfica. Insuportavelmente.
A certeza que carrego é que no nascimento de alguém, seu destino está todo escrito. E meu destino e minha historia vocês conhecerão agora.
Nasci em berço de ouro, como diziam os antigos; de família afortunada, materialmente nunca me faltou nada e sempre tive tudo o que quis, muito além das necessidades básicas de qualquer ser humano. E, privilegiada que fui pela fortuna, também o fui pela natureza, extremamente bela. Infelizmente, beleza e riqueza não são atributos que possam dar-nos a garantia de felicidade plena, por mais que alguns creiam nisto. Digo isso a vocês com a certeza e segurança de ser uma alma pisada.
Minha infância foi normal, nada muito diferente das outras meninas de minha classe social: francês, ballet, piano, canto…Ah! a mentalidade de certas mães que nenhuma menina nasce fina, mas aprende em algumas escolas…de forma que, por força das circunstâncias me tornei uma Lady. Mas claro está que se fosse outra menina que recebesse minha educação, o mesmo ocorreria. Bem, pulemos minha infância e minha adolescência, que são menos interessantes que minha vida adulta.
Aos 19 anos a morte de meus genitores deixou-me em uma situação muito confortável. Herdeira de uma fortuna invejável, não tive motivos para sentir esta perda, o sentimento que brotou em meu coração foi uma imensa alegria pela liberdade que começaria, acreditava, a ter. E a primeira coisa que fiz foi uma viagem à Europa, detendo-me em Paris e Roma, menos para admirar artes do que para fazer compras.
De volta ao meu país, percebi uma grande sensação de vazio, algo causado não sei por que, mas que começou a me torturar mais do que de costume. A que se dava essa insatisfação? Morava em uma casa cinematográfica, era linda, culta e afortunada, mas creio que algo me faltava…
Comprei um carro italiano, o que por uns dias bastou-me como remédio, mas logo depois a sensação voltava. Incrível, parece que eu não carecia de bens materiais, mas por quê não insistir nisto ainda? O caso é que depois tive como posses fazenda, cavalos, jóias… tudo em vão, o deslumbramento por tanto comprar e ainda sentir-me infeliz levou-me a pensar em que realmente me faltava. Creio que era o amor, o tão falado amor que modificava sempre a vida das pessoas, que levou o pobre Werther a abrir mão da própria vida, que levou minha irmã gêmea a mudar-se do país.
Ainda não falei de minha irmã, que mora em Madri desde a morte de nossos pais, e de nosso primo, o grande amor da vida dela. Mas, como em muitos pontos, descreve-la é descrever-me, deixarei para falar dela em um momento mais oportuno.
Voltemos agora ao amor. Conscientizei-me de que era o que me faltava, e parti em uma busca desenfreada por ele. Mas, todos os homens interessantes ou não que conheci, tinham em comum apenas o interesse em minha fortuna. Se isso não preencheu-me, ao menos supriu algumas de minhas carências e instintos animalescos, tornando-me, ao fim uma mulher entregue à promiscuidade.
Algumas pessoas, quando saem em busca de algo que não sabem o que é, correm o risco de destruir-se durante o percurso. É como o gato, que, movido pela curiosidade de conhecer o outro lado da rua e ignorando a existência dos motoristas imprudentes que enchem de perigo a curta travessia do desinformado felino, acaba morto em função de sua curiosidade. Ocorre que me portei um pouco como o bichano, movida pela curiosidade, apesar de ciente dos riscos que corria. Não os calculei, conhecia-os bem,e queria muito corrê-los.
Aqui se inicia minha plena degradação. Não tome meu discurso como moralista, estou apenas narrando o que me aconteceu da forma como eu sinto. E como não era o amor que me preenchia, creio que deveria existir algo que me alegraria por pelo menos alguns momentos. Iniciei com o álcool, mas tive que trocá-lo logo por outra substância que não me causasse os efeitos colaterais causados pela bebida: meu corpo já não era mais o mesmo, minha aparência tornava-se inchada e eu pesava mais do que de costume. Pelo menos, poderia continuar magra e estaria mais alerta, por alguns momentos.
Cometi todos os abusos possíveis contra o meu corpo, até o dia em que me peguei em 2º mês de gestação. Claro que, deteriorada fisicamente como estava, o bebê (eu não o considerava um simples feto, mas já era meu bebê, meu filho querido, porque já o amava, e muito o queria) não suportou. Esta perda doeu-me muito, e sentindo-me fragilizada, pedi à minha irmã que retornasse ao Brasil, para ficar comigo um pouco, já que sentia minhas forças se extinguirem e tinha o pressentimento que meu tempo neste mundo seria curto.
Algumas pessoas fazem da vida algo muito simples, e por isso são felizes. Outras, aprendem a se fazer felizes, e a partir disso tentam fazer da vida algo mais simples. Não sei em qual dos casos minha irmã se encaixa, mas entre a menina abatida e sofrida que foi morar no exterior e a mulher que voltou 6 anos depois, a diferença era muito aparente. Via em minha frente um perfeito exemplar de uma pessoa extremamente satisfeita consigo mesma.
Confesso que seu bom humor constante e felicidade a princípio me incomodaram, eu não encontrava coerência, nós duas recebemos a mesma educação e ela era feliz e eu não? E o mais curioso é que, enquanto eu vivia aqui com todo o conforto ela levava uma vida dura, pois, boa irmã que sou, preferi gastar com meus lindos amigos e minhas futilidades ao invés de mandar-lhe dinheiro todos os meses, conforme havíamos combinado. E, devido a essa vida dura que ela levava, aprendeu, ao contrário de mim, a lutar por alguma coisa.
Eu não agüentava mais minha infelicidade, então decidi finalmente dar cabo de minha própria vida. E, já que a felicidade não me estava destinada, talvez sim restaria o consolo de uma boa morte. E do modo mais vulgar possível: me envenenaria. Sim, nada que um péssimo raticida não cure, eu pensava… Então, esperei minha adorada e irritante irmãzinha se ausentar de casa, para dar início ao meu grande objetivo.
Dizem que nos momentos finais da nossa vida, ela passa toda diante dos nossos olhos. Bem, ingerida minha poção, não foi isso quem eu realmente visualizei, mas sim a causa da felicidade de minha irmã, e de minha infelicidade: ela sempre fora livre, eu não. Percebi, tarde, demasiado tarde, que sempre fui uma marionete nas mãos de minha insatisfação constante, tinha gosto em afundar no sofrimento, enquanto ela enfrentara as agruras do destino como uma mulher valente. O que eu deveria ter sido, e não fui. Tão simples! E sempre achei tão lindo ser sofredora… sempre achei que seria mais amada e mais querida, vi que era tudo ao contrário… estava só, sem amigos, sem ninguém e o único ser que realmente me amava tinha se ausentado, não sem antes me convidar com aquele sorriso cativante! Se lhe tivesse feito companhia, e aprendido com ela a ser forte, talvez não tivesse aqui, acabado de tomar uma dose cavalar de veneno, e não estivesse arrependida de estar quase morta, e saber que este processo tornou-se irreversível. Ou, se tivesse descoberto isso há 10 minutos atrás, ao invés de ficar contando-lhe minha devassa vida..













[...] Os sofrimentos de uma jovem Lady [...]
Meu, que conto!
Muito bem escrito Deni! prabens!