… por Romenique Zedeck
Ele vociferava palavras loucas aos ventos.
Mas isso não era nenhuma novidade para as pessoas daquele lugar. Todos os dias – ou quase em todos –, ele dizia palavras que, às vezes, soavam mais como grunhidos. Às vezes, ele se calava e assim ficava durante longos dias; no máximo resmungando algum comentário para si. Sua cara bronzeada e pungente continha as rugas de alguém que vivera séculos a fio.
Sua barba agora chegava aos joelhos e seu ralo cabelo aos ombros. As crianças, dele caçoavam. Os adultos o temiam. Todos o tinham como um simples velho eremita, que ali chegara e se instalara. Ninguém sabia ao certo quando ele chegara, só sabiam que havia sido há muito tempo e que haviam se acostumado com a presença do velho louco. Assim era a vida naquele pequeno, mas distinto, lugar.
Até a chegada do forasteiro. Chegara abatido, com o corpo curvando-se por causa do próprio peso, devido a sua longa viagem. Instalara-se no pequeno hotel – algo que existia ali, naquele lugarejo, como um verdadeiro milagre – e dormira durante quatro longos dias.
Ao acordar, ele parecia destinado a continuar sua misteriosa peregrinação. Não falava muito; mas ninguém ali falava muito mesmo. Fizera seus preparativos para sair ainda àquela noite, como se caçasse algo urgente e que fugiria ao menor descuido seu. Então cruzou com o velho.
Seus olhos se atrairam, como se os dois fossem velhos conhecidos que se encontravam. Parecia, ao forasteiro, que olhava seus próprios olhos num espelho. Nenhum dos dois disse algo. Apenas cada um seguiu seu caminho. O forasteiro estava nitidamente abalado, como se ele já conhecesse o velho. O velho, com um sorriso ainda mais louco, esbravejava mais alto suas palavras, como se ganhasse novo fôlego ao ver o jovem.
A noite se aproximava, e o perturbado forasteiro não tirava da cabeça a imagem do velho louco. Tinha de lhe fazer uma pergunta antes de ir, antes de seguir a jornada ou ficaria igual ao velho eremita. Aproximara-se do homem e perguntou:
– Quando foi que você enlouqueceu?
E o velho, como se abandonasse sua loucura instantaneamente, abrindo um sorriso cínico, aprofundando mais suas rugas, disse olhando nos olhos do forasteiro:
– Quando você descobriu a verdade sobre o mundo!
E, então, virou-se e tomou a mochila do forasteiro e seguiu o seu caminho, o caminho do forasteiro, deixando-o ali, perplexo, com a verdade que descobrira.













[...] O forasteiro [...]
Aprendi muito