Liga de Heróis Brasileiros

Capítulo 1

As senhoras aventuras do Sexagenário – O Trovão Humano

Dia 5. Dia de João Gabriel ir para a fila do INSS receber seu soldo pelos serviços prestados à nação. Serviços estes que lhe renderam uma artrose, pressão alta e mais uma lista imensa de doenças que lhe impediam de trabalhar há anos. João Gabriel era mais um aposentado, fodido e mal pago pelo sistema tributário brasileiro.

Neste específico dia cinco, seu João acordara com o ombro dormente. Não só o ombro, quase o braço inteiro. Como havia dormido de mau jeito, não deu muita importância. Tomou um banho para iniciar o dia, e aquela sensação foi diminuindo.

Alimentou o cachorro, tomou seu parco café. Não tinha muitas regalias porque gastava sua merreca com remédios. Maldita empresa! Ainda deviam grana a ele, diziam que iriam pagar, mas demoraria um pouco, pois a empresa tava mal das pernas.

Mal o caralho! Mal estava ele, sobrevivendo com aquela porcaria de aposentadoria e ainda com aquelas dores! Os donos a esta hora nem deviam estar acordados. Deviam estar dormindo em suas camas de colchão d’água, esperando a empregada ou a esposa gostosa levar seu café matinal cinematográfico na cama.

Pensar nessas coisas fazia a sua pressão ir para as nuvens. Fazia-o ouvir o zunido das asas dos anjos. Pelo menos era isso que ele pensava, quando na verdade era apenas a pressão alta mesmo. Pronto. Boina na cabeça, bengala na mão e seus sapatos confortáveis nos pés, pois a fila do dia era quilométrica.

Ainda emputecido sai de casa. Chaves no bolso, dinheiro e documentos na carteira de mão old-fashioned, remédios na pochete, pois a fila do dia era quilométrica e iria demorar. Ao lembrar-se disso, passava na frente da banca de jornal do Richard, seu amigo de longa data. Compra um jornal, em partes pelas noticias, em parte pelo sudoku. Nota os adolescentes comprando quadrinhos e disfarçando o olhar nas revistas pornô. Sempre quis saber por que os quadrinhos ficavam perto da seção pornô, se o publico alvo não era o mesmo. Ou era? Grande mistério! Pensando nisso solta um risinho. Ia perguntar isso ao amigo-jornaleiro, mas olhou a hora e decidiu ir embora. Aquele pequeno mistério maçônico, já que todo mistério do mundo era maçônico para ele, podia esperar. Mais um risinho. Deus do céu, nem parecia que era o famigerado dia cinco. Vários pensamentos sem conexões aparentes passam por sua mente enquanto caminha ao ponto de ônibus. Chega cedo ao ponto, esperando aquela lata velha. Quinze para as sete. Até andaria até lá, se isso não o fizesse ouvir o farfalhar de asas angelicais. Sete e quinze. Cadê o ônibus? Cadê o baiano porra? Caramba, se sentia o Ari Toledo em pessoa hoje! Sete e quarenta e sete. Nada. O bom humor passa junto com o tempo. Pensa nos heróis que a molecada lia na banca de jornal. Se tivesse poderes por um dia, não iria salvar pessoas em prédios em chamas, nem mesmo um avião com pane, iria mesmo dar um jeito nessa bosta de transporte publico! Claro que depois de acertar as contas com seu ex-patrão.

Ônibus na rua, sinal ao motorista e alivio na cara. Momentâneo. Tão logo chega o busão e nota que está lotado. Pensa no assento reservado, que está ocupado por um roqueiro de merda dormindo com os fones de ouvido. Ou pelo menos finge que esta dormindo. Mais um que entra em sua lista de contas-a-acertar-quando-tiver-superpoderes.

Há algum tempo ele tem notado que quando ele entra num ônibus lotado todos começam a dormir. Às vezes ele acha que é o deus do sonho e esqueceram de avisá-lo.

Apenas quinze minutos e já esta no seu destino. Então, João olha a fila e sente uma nova fisgada no peito: quando imaginava uma fila quilométrica não queria dizer isto no sentido literário, mas a fila já dobrava as esquinas. Nem mesmo o sudoku nível sete daria conta de uma fila daquelas. Resignado, apenas puxa a cordinha do sinal e desce, e xinga o metaleiro mais uma vez, só pra dar boa sorte.

Na fila nada de mais acontece, o que podemos dizer é que estava lenta pra danar (mas estranho mesmo seria se não estivesse) e que as noticias, assim como o sudoku, também acabam. Lentamente sua vez de encarar o atendente vai chegando.

Então seu celular toca. No visor ele vê que é sua filha chamando.

— Alô pai?

— Sim?

— Sabe da última que sua protegida aprontou?

Sua filha ficou viúva logo quando a neta nasceu. Por isso, ele representava um pouco o lado masculino na criação da neta. Às vezes sua filha ligava pra falar algo que a neta aprontara e, quando ela falava naquele tom de voz, era por que sua neta tinha aprontado e era coisa da braba. Sente mais uma pontada no peito.

— O que foi Rosana?

— Sua neta está grávida! E eu nem desconfio quem seja o pai!

Essa foi a gota d’água. O coração que já estava dando sinal que iria parar, parou. Seu João Gabriel sofre uma parada cardíaca no meio da conversa. Sua filha não percebe, mas seu João está caído com o celular longe. Durante alguns segundos ninguém percebe o ocorrido, mas depois de um curto espaço de tempo, seu João está com um monte de curiosos em volta e uns poucos já chamando uma ambulância. Ela continua falando da sua filha, neta de seu João, mas ele não ouve. Sua sorte foi lançada: em menos de cinco minutos a parada será irreversível e ai fim de jogo. E é a partir daqui que teremos que prestar atenção à obra do Destino!

Durante os três primeiros minutos, nada de mais acontece. Apenas algumas pessoas em volta especulando o que aconteceu. Com três minutos e vinte e seis segundos temos uma reviravolta no jogo: aparece um cara que faz massagem cardíaca e respiração boca a boca e começa o trabalho de reanimação. Com sucesso!

Oito minutos e cinqüenta e quatro segundos depois reanimado e confuso com o que aconteceu, seu João aguarda a chegada da ambulância, que demora um pouco a chegar. Se dependesse somente dela, teríamos um herói a menos na historia e umas vinte páginas a menos neste relatório – o que não seria de todo mau, pois da um trabalhão redigir isso.

Na ambulância, João é questionado sobre o acontecido, mas ele de nada lembra. Ou de quase nada. Mau sabe onde está ou quem são aquelas pessoas. Um clarão vem a sua mente e lembra-se de ter saído de casa cedo. Lembra-se do metaleiro (aquele maldito), e lembra-se da fila. Lembra do um, quatro, cinco, nove e zero que formaram a ultima seqüência do sudoku. Começa a lembrar que falava com a filha no telefone, percebendo que o aparelho não estava mais com ele, e que o assunto era… A emoção forte faz que seu João passesse mal mais uma vez. Porém, dessa vez, ele só sente uma vertigem. Alem do mais, agora ele esta acompanhado por médicos-bombeiros e esta indo para um hospital.

Por garantia, dão-lhe um sedativo fraco e ele mais uma vez apaga. Mas esta ainda não será a ultima vez que João Gabriel apagará neste dia. É encaminhado para um hospital da rede pública.

Se ele estivesse acordado teria sabido de antemão que estava condenado. Sem querer falar mal do sistema de saúde deste país, que investe mais em samba que em hospitais, mas é que o negocio é feio de verdade. Saca só:

Já que estava sedado e desacompanhado, seu João foi deixado numa maca no corredor mesmo, porque o hospital estava com falta de leitos.

No meio tempo entre a entrada no hospital e a futura internação, seu João acorda e se vê numa maca, num hospital sem se lembrar de lhufas de como havia chegado naquele lugar. Ainda com roupa do corpo, desnorteado ele simplesmente levanta da maca e vai embora, formando, ou ao menos tentando formar, uma idéia de como havia feito para chegar ali. Passa pela recepção, mas ninguém responsável o nota. Também pudera, o caos estava instaurado, era muita gente querendo informações sobre seus entes queridos. Não tinha como as recepcionistas notarem um senhor comum meio abatido – e quem não fica abatido num hospital? – saindo dali e em direção ao ponto de taxi.

Pois seu João faz exatamente isso. Saiu do hospital caminhando meio de cabeça baixa, pensando na sua estranha tele transportação e sem prestar muita atenção, atravessa a rua.

Ou quase.

Se não fosse um carro que vinha um pouco rápido demais, seu João teria atravessado a rua em segurança, mas na verdade ele foi atropelado.

Dessa vez foi mais serio! Mal havia se recuperado do principio de infarto e já estava atropelado. E uma parada cardiorrespiratória acontecia agora! Mais uma vez a ampulheta da vida de seu João começa a escorrer os grãos. A equipe médica chega rápido, pois estavam nem a quinze metros do local do acidente. Agora seu João vai direto para a sala de cirurgia.

Mas em trinta segundos seu João estará definitivamente morto.

Vinte segundos.

A massagem cardíaca não está funcionando, e o medico responsável manda preparar o desfibrilador.

Quinze segundos.

— Primeira carga!

O corpo inerte de João estremece, mas nada significante acontece. Sinais vitais vão baixando, e a vida dele vai se esvaindo aos poucos junto às areias do tempo que correm.

Dez segundos.

— Segunda carga!

Mais um baque, mais uma tentativa em vão. A vida de seu João continua saindo do corpo. O momento crucial para o nascimento do nosso herói vai chegando.

Três segundos.

A areia da vida corre como se quisesse abreviar o trabalho dos médicos.

Ao dar a ordem da terceira carga, a areia da ampulheta que marca a vida de seu João vai ficando escassa. Quase se contam nos dedos os grãos restantes.

— Terceira carga!

O último grão está caindo. A parte superior, que marca a vida está finalmente vazia. Porém, a parte de baixo que declara a morte ainda não recebeu o grão decisivo.

João Gabriel da Graça Neves não está vivo e nem morto. É nesse estado, nesse breve momento de tempo que a corrente elétrica do desfibrilador percorre o coração do primeiro, mas não último, herói brasileiro.

Primeiro, há um grande apagão na emergência. O corpo de João começa a receber descargas elétricas. Na verdade seu corpo chama a eletricidade, e ela obedece. Das tomadas pode se ver linhas azuladas cortando a escuridão e indo de encontro ao corpo que estremece como se estive num ataque epilético. Mas o corpo não queima, como aconteceria a um corpo comum: ele levita!

A equipe médica está aterrorizada. Exceto pelo crepitar da eletricidade, tudo está em silêncio. Todos observam o renascimento de João que agora levita e lembra um bebê em posição fetal. E então um grito.

Mais tarde, quando indagados sobre o ocorrido, cada um se lembra de uma coisa, de um jeito diferente. Menos daquele urro que misturava, medo, surpresa, dor. Rouco e agudo ao mesmo tempo. Era sem duvida o grito do trovão.

Quando o grito sumiu, a eletricidade naquela sala voltou ao normal. Não havia nenhum corpo sobre a maca.

3 Comments Post a Comment
  1. [...] Liga de Heróis Brasileiros [...]

  2. guilherme says:

    Salve salve galera do vitrine…

    muito boa essa historia…sem duvidas…somos todos herois por todos os dias de nosso cotidiano…

    continuem fazendo sempre algo q realmente chama a atenção da cambada…hehehehehehehe…

    abrazzzzz

  3. MiMiMister Sunshine a.K.a. JuxBöse says:

    Incribelesco, Chuchu!
    Agora, digo-lhe, o Empreiteiro aparecerá? ^^

    E assim que o Segundo Capitulo sair, me avise, e no dia 18, si pá, nós trocamos uma idéia lá!

    Abração e Parabéns.

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