Anjos…

Capítulo 3

Tiago nunca foi religioso. Os pais dele eram o que muitos brasileiros costumam dizer: católicos não praticantes. Ir à igreja para eles era coisa muito rara. Isso acontecia na maioria das vezes quando havia algum casamento de amigos da família ou um batizado também nessa condição. Em viagens chegavam a passar pra visitar alguns templos, principalmente como naquele feriadão prolongado do ano passado. Se ele não estava enganado, achava que era o da revolta dos paulista de 1932.

Como comerciantes, os pais de Tiago quase não tinham feriados, já que é justamente nesses períodos que mais pessoas costumam ter tempo para visitar ruas de comércio popular como a Santa Ifigênia. Mas naquele feriado, que era comemorado apenas em São Paulo, resolveram tirar os dias de folga. Eles queriam passar algum tempo com Tiago e escolheram fazer isso levando-o na cidade que tinham se conhecido, Ouro Preto, em Minas Gerais. Até hoje Tiago imagina que a intenção deles não foi somente mostrar os lugares dos quais eles sempre falavam quando contavam Pa alguém sobre como começaram a namorar. Tudo aconteceu por causa de uma viagem da escola deles, na época em que os colégios faziam excursões de verdade.

Em Ouro Preto, além das feiras de artesanato onde o forte são as peças feitas de pedra de sabão (jogos de tabuleiro, porta temperos, miniaturas dos casarões, igrejas e da Estátua de Tiradentes, localizada na praça de mesmo nome), havia muitas igrejas históricas para se visitar. A maioria são praticamente a mesma coisa, mas todo mundo adorava entrar em cada uma delas e ficar suspirando “ós” de fascínio. Tiago, por sua vez… Bem, pra não ser injusto, suspirou da mesma forma nas primeiras duas igrejas. A mais bonita, para ele, é a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, ao lado do Museu Aleijadinho (que também foi uma igreja). Elas eram de fato bonitas, chamam a atenção de quem nunca viu construções como aquelas. Mas na terceira, Tiago começou a achar que o guia de 12 anos, que praticamente forçou uma breve adoção dos Pereira, estava mais perdido que eles. Parecia que andavam em círculos, parando sempre em uma igreja que eles já tinham visto (mas era só impressão mesmo).

Esses guias geralmente trabalham em uma espécie de parceria com escola e prefeitura. Na época era conhecido como projeto GURI. Tiago chegou até a ficar meio envergonhado com o tanto que o garoto sabia de história. Tudo bem que era da história local, mas ele nunca imaginou que um menino só dois anos mais novo que ele reconhecia melhor arte barroca do que o professor dele. “Ah, mas ele sabe tudo isso graças à repetição diária!”, tentava dizer pra si mesmo tentando amenizar o fato de que nem com repetição osmótica ele conseguira entender todos os estilos artísticos brasileiros.

E pior do que isso é ser levado pra uma cidade daquela e não poder se livrar dos pais. Imagine se os pais dele não tivessem dito que a viagem serviria para ele conhecer gente nova. Disseram, inclusive que em Ouro Preto, como todo estado de Minas Gerais, há muitas meninas de beleza sem igual. Porém, de que adiante isso se ele não podia sair à noite sem escolta dos pais e, muito menos, frequentar os bares do centro turístico da cidade?

Ele terminou o feriado mais solteiro ainda, já que ele dispensou o convite de amigos pra ir no cinema (e entre esses amigos haveriam amigas também). Mas enquanto ele pensava nessas coisas, deu-se conta de que ainda não tinha conhecido Aninha naquela época. E esse pensamento o fez perceber também que aquilo eram simples pensamentos, mas sim uma espécie de sonho-recordação. Como todo pensamento, ele acabou desviando da questão que o iniciou: anjos.

Anjos, no entender de Tiago, eram seres celestiais. Porcamente sabia que eles ou eram mensageiros de Deus ou protetores da humanidade. Não na maioria das hipóteses, já que existem os tais anjos da morte. E ao lembrar deles, tremeu. Mas não foi por nenhum tipo de reação emocional. Alguém tinha esbarrado onde ele estava, naquele momento, deitado. Os olhos começaram a se abrir. Primeiro ele viu uma espécie de mesa de ferramentas cirúrgicas do lado esquerdo dele. Desceu os olhos e se viu numa cama, não em uma maca hospitalar. Era uma cama comum, inclusive, sem lençol branco (era vermelho). Olhou para o pé da cama. Encostada ali estava a bela garota ruiva que ele viu (sonhou?) arremessando um ônibus pra estratosfera terrestre (e se não foi até lá, com certeza algum outro pais iria saber a resposta… “Pra que lado fica o Iraque mesmo?”).

O olhar dela era indecifrável. Mas sem dúvida era um anjo. Às costas dela estavam as asas. Elas não eram brancas, pra surpresa de Tiago. Eram quase da mesma cor da pela da mulher que o encarava. E essas duas coisas o incomodavam muito. Achava até que o fato dela o encarar era ainda mais desconfortável do que acreditar que as asas eram reais e não se preocupar com a própria sanidade. No entanto, tudo ali era real, inclusive a dor que sentia no alto da testa. Lembrou-se que tinha se machucado ao cair no chão e, por instinto, tentou sentir o estrago com a mão direita… Não foi bem sucedido.

A garota agora estava em cima dele, com uma das mãos no peito de Tiago e a outra impedindo que ele tocasse no curativo que protegia o ferimento. Mentalmente, Tiago pediu todos os perdões que achava necessário ao sentimento que guardava por Aninha. Isso porque o fôlego dele foi pras cucuias. A garota anjo parecia não se importar com o “sofrimento” de Tiago:

— Não, não! Nada de mexer aí. O corte não foi tão feio, mas eu tive que dar uns dois pontos. Está sentindo alguma dor?

— “Só se ela estiver se referindo à pressão que sentia na altura da virilha”, ele pensou.

— Não, do-dor ne-nenhuma — gaguejou. — E-estou me-me sentido mu-muito bem. — E de fato estava. Nunca tinha se sentido tão bem, pra ser bastante sincero. Havia sentido uma dor bastante significante quando caíra no chão da calçada, achava até que tinha quebrado alguma coisa. Começou, inclusive, a imaginar que talvez estivesse com alguma hemorragia interna. Já tinha ouvido falar em casos no qual pessoas eram atropeladas e se sentiam completamente bem em seguida, nenhuma dor além da causada pelo impacto. Mas depois de algum tempo essa mesma pessoa entraria em um quadro de hemorragia interna, o que poderia levá-la facilmente à morte.

— Que-quem é você? — que se dane a hemorragia, ele tinha algo mais urgente pra descobrir. — Onde eu estou? Eu morri? — agora a hemorragia voltara a ser um assunto importante. — Você é o que chamam de anjo da morte? — “Pelo menos os caras lá do céu sabiam como amenizar o sofrimento de alguém que acabara de morrer”, pensou. Se as pessoas soubessem que seriam escoltadas por anjos da morte como aquela garota, suicídio deixaria de ser visto como pecado, principalmente, para os cristãos.

— Não, mocinho! Pelo que dá pra perceber aqui, você está bem vivo! — ela disse, olhando para onde Tiago temia que ela olhasse. “E se fosse pecado cobiçar sexualmente um anjo?”, começou a pensar que quem quer que trabalhasse no céu tinha um péssimo censo de humor. — Espere, você deve estar com fome. Além disso, você perdeu sangue, então, precisa recuperar alguma proteína.

Ela se levantou ao final da frase, pra tristeza de Tiago. Mas ele ainda pode vislumbrar todas aquelas curvas do corpo da garota passando quase em câmera lenta pelos seus olhos. Ele tentou evitar olhar para a bunda dela… “Caramba, Tiago, ela é um anjo”, brigou consigo mesmo. Tudo em vão. Era como colocar um cachorro ao lado da mesa de jantar durante uma ceia de Natal. As asas dela tinham sumido, mas ele nem percebeu quando e como isso aconteceu. Simplesmente sumiram.

— Como eu fui rude — ela já estava de volta, segurando uma bandeja com uma quantidade considerável de comida. — Eu sou Alana. Você me perguntou antes, mas acabei não respondendo. Tome, coma, foi feito especialmente pra você.

— Muito obrigado. — Ao ver do que se tratava a comida que lhe era oferecida, Tiago sentiu o estômago roncar “excruciantemente”. Parecia que havia crocodilos no estômago que tinham farejado um filhote de leão se aproximar da lagoa. — Está servida? — pensou que isso seria educado.

— Oh, que gentil! Mas não se preocupe, essa comida foi feita especialmente pra você, como já disse.

Isso pareceu estranho. Como assim “especialmente pra ele”? Será que é assim que os anjos da morte realmente matam os condenados, pela boca? Mas depois raciocinou: se ela iria matá-lo, já teria feito. “Que tipo de assassino dá de comer às suas vítimas?”, pensou. Talvez a bruxa de João e Maria, que engordava crianças para depois se engordar comendo literalmente os fedelhos (que no caso dos dois irmão, Tiago sempre achou que eles mereceram o susto). Mas ele nunca soube que anjos comiam gente… Mas e se aquela garota não fosse um anjo, mas um demônio. Ele já viu demônios alados em pinturas, livros, quadrinhos e, principalmente, filmes. Até aquele momento, sempre achou que tudo aquilo era pura ficção. E mesmo depois de ver as asas da garota e o que ela fez para salvá-lo ainda não tinha certeza se acreditava em tudo.

Talvez ele tivesse batido com a cabeça mais forte do que imaginava. Começou a pensar que talvez estivesse entrado em coma. Isso era bem provável. Na verdade, era a única explicação coerente pra tudo aquilo. Certamente ele foi atingido pelo micro-ônibus, bateu com a cabeça na calçada, teve um traumatismo craniano e, já inconsciente, imaginara todo o episódio digno de revistas em quadrinhos de super-heróis. Ele não lembrava onde leu que algumas pessoas em coma chegam a ter sonhos que parecem muito reais. E se era mesmo esse o caso dele, a fome que sentia estava se manifestando do sono dele. E se aquilo era mesmo um sonho, não lhe faria mal nenhum comer daquela bandeja (que estava bastante atrativa, pra ser bem sincero).

Ele comeu. E se arrependeu de não ter feito isso antes. O garoto começou com um bolinho recheado com marshmallow. Lembrava muito os bolinhos Ana Maria. Só lembravam, pois o gosto era muito melhor. Tiago, então, resolveu experimentar o suco acomodado no canto exterior direito da bandeja. Na verdade, não era bem um suco, mas um refrigerante de abacaxi. Na hora que provou, lembrou-se do dia em que a mãe dele resolveu economizar nas compras do mês e experimentou levar pra casa alguns refrigerantes da marca Convenção. Foi uma surpresa para a família Pereira, todos adoraram e a bebida virou quase obrigatória na mesa deles.

Porém, mais uma vez, aquele refrigerante que acabara de tomar era ainda melhor. Ele parecia combinar com o resto de sabor que ficara do bolinho recheado. E Tiago não demorou pra perceber que essa sensação aumentava a cada novo item que comia da bandeja. Pensou até que se aquilo era mesmo um coma, seria um problema acordar dele com tanta mordomia. Imaginou que se levantasse dali, para olhar pela janela do quarto (sempre fechada), veria nuvens e anjos sobrevoando e pousando por elas. E podia jurar que a maioria seria como sua suposta salvadora: anjinhas ruivas, morenas e loiras, todas seminuas. Mas o ímpeto de ir verificar sumia a cada colherada que tomava do mingau de fubá (com ovo cozido e tudo) que Alana tinha acabado de colocar na bandeja, assim que viu um espaço se abrindo conforme ele devorava o que estava ali. E quando ela trouxe o último prato (um delicioso pudim de leite condensado), ficou sentada ao lado da cama, observando-o comer.

Enquanto Tiago comia foi fácil se concentrar em outra coisa além do decote da bela criatura. Mas depois ele começou a imaginar que a verdadeira sobremesa ainda estava por vir (e mais uma vez pediu perdão a Aninha… “mas aquilo era um sonho, poxa vida”). Quando ele terminou, foi como se a bandeja nunca tivesse estado ali.

— E aí? Estou aprovada? Você foi o primeiro pra quem eu cozinhei. Consegui fazer tudo certinho? — Alana perguntou.

— Se essa foi a primeira vez que você cozinha pra alguém, estou honrado por ser a cobaia. Você não tem mais nada aí pra eu testar (e ele estava falando da comida, acredita). — Tiago, depois de comer, estava muito mais confiante. Ele diria até que estava ESTRANHAMENTE mais confiante. Tanto que ele nem esperou Alana falar e disse:

— O que você colocou nessa comida, algum tipo de droga? Ela é simplesmente viciante. Estava maravilhosa. Eu ainda consigo sentir o gosto de cada ingrediente.

— Mas era essa a intenção, oras. Cozinhar pra alguém é isso. Todo mundo aprende que a comida deve ser feita na medida pra cada pessoa. — Alana falava isso como se aquilo tudo fosse o trabalho dela. Soava como se tivesse nascido para aquilo, inclusive. Pareceu até um pouco ofendida com a obviedade do que Tiago havia dito. — Você é um menino gentil, tímido… Até demais. Por isso, percebi que você precisava experimentar algumas combinações diferentes de tudo aquilo que mais gosta.

— Mas como você sabia que eu gosto de tudo aquilo? — daí Tiago lembrou da possibilidade do coma. Se aquilo era um sonho, essa é a resposta pra pergunta.

— Tiago, não se faça de bobo. A gente está junto a tanto tempo, não é possível que você pense que eu seja tão desnaturada. — Mais uma vez, Tiago teve certeza de que aquilo tudo era uma alucinação. Resolveu embarcar na brincadeira.

— Claro, Alana. Desculpe-me, inclusive, por ter esquecido seu nome. — Jogou a indireta, lembrando-se de uma das primeiras perguntas que fez pra garota.

— Realmente, Tiago, a batida na sua cabeça deve ter causado mais danos do que eu imaginei. Lógico que você não se lembraria do MEU nome. Nós somos muitas. Mas conhecemos e sempre cuidamos muito bem de você.

— Ah, claro. Lógico, agora tudo faz mais sentido. — Ele estava mais perdido que cego no deserto. Começava a pensar se o coma não estava se transformando em algo mais sério (como esquizofrenia, por exemplo). — A, tá, a gente não se conheceu hoje! Claro, já nos conhecemos há… Há quanto tempo mesmo?

— Tiago, estou começando a ficar preocupada contigo. Será que minha comida não foi tão boa como pareceu? Acho que vou precisar levá-lo para as médicas. Talvez tenha acontecido alguma coisa coma sua memória, por causa da batida. Você consegue se levantar?

Tiago nem havia cogitado a possibilidade de tentar, nem mesmo pra conferir se haviam outros anjos do outro lado da janela. Mas agora que a questão lhe foi feita, ele se deu conta que estava muito bem. Poderia não só andar, mas correr uma maratona. Teve até vontade de ir a alguma aula de Ed. Física. Ele tinha certeza absoluta de que faria garotos como Júnior de meros espectadores.

— Sim. Se você me der uma asa dessas eu posso até voar. — Ele pensou que tinha feito uma ironia engraçada, mas o efeito que essa frase causou em Alana foi preocupante. Ela estava consternada.

— Ai, meu Tiago. Venha, o problema é ainda pior. Preciso levá-lo até sua mãe. — disse Alana.
— Minha mãe? O que a minha mãe esta fazendo aqui?
— Oh, Tiago. Venha, vamos correr.
— Mas me diga… — Ele não conseguiu terminar. Viu a única janela do quarto, que ficava logo na lateral da cama onde ele passara aqueles últimos minutos acordado (ou aquela última hora, não soube precisar), se abrir. A janela se escancarou como se tivesse respondido a algum comando mental de Alana.

A garota segurou Tiago pela cintura, com ele de costas para ela. Os dois saíram voando pela janela, as asas de Alana tinham reaparecido e, abertas, eram enormes. Elas deviam ter, mais ou menos, uns cinco ou seis metros de envergadura. Tiago pode reparar também que algumas penas da parte interior eram tão vermelhas quanto o cabelo da dona. Quando ele desviou os olhos do que dava para ver das asas, procurou coragem para desafiar o medo de altura.

Tiago nunca voou de asa delta. Mas tinha absoluta certeza que aquela situação seria de dar inveja a qualquer profissional que fizesse diariamente esse tipo de vôo. Ele estava preso somente pelas mãos de Alana e isso dava a impressão de que era ele quem estava voando. Procurou manter os olhos à frente, mas em pouco tempo a adrenalina baixou e ele conseguiu relaxar pra observar. O que ele viu derrubou por terra tudo o que havia imaginado mais cedo. Não tinha nenhuma nuvenzinha fofinha por ali. Havia nuvens, mas de puro acúmulos limbos e elas estavam a alguns metros (ou mesmo quilômetros) acima deles.

Na altura em que voavam, Tiago viu e ficou boquiaberto com o que via abaixo dele. Era, nada mais, nada menos, que a própria cidade de São Paulo. Dali de cima ele conseguia ver o que a garotada da escola adorava chamar de “O grande falo da cidade”. Era, na verdade, o obelisco de São Paulo, símbolo da Revolução Constitucionalista de 1932. Próximo dali, via perfeitamente o Parque Ibirapuera. A Av. Paulista também era visível por subindo um pouquinho a visão.

Tiago, então, sentiu que estava descendo. E conforme ia descendo, reparou que a cidade estava, aparentemente, vazia. Não conseguiu encontrar pessoa alguma olhando lá de cima. Nada de carros ou toda aquela confusão característica da grande metrópole. Alana aumentou um pouco mais a velocidade de descida e isso fez Tiago sentir aquele frio na barriga maldito de quando andamos de montanha russa. Quando o vôo ficou um pouco mais próximo de se tornar um perfeito rasante, o garoto viu onde iriam pousar.

Acho que já fazia um ano exato da última vez que ele havia ido ao Playcenter. Que coincidência. Ele gostava muito dali. Mesmo sendo sempre arredio com as matérias de esforço físico, adorava quando os professores de Ed. Física propunham excursão para o parque de diversões (mesmo quando ele não se divertia tanto quanto esperava). Ano passado mesmo ele quase desmaiou depois de passar três horas na fila do Splash, um dos brinquedos aquáticos e favoritos dele. O sol estava muito forte e o choque do corpo quente com água gelada fez com que ele tivesse uma espécie de insolação com desequilíbrio térmico.

Mas ele passou somente uma hora na enfermaria do parque e depois já estava pronto pra mais. Ele tinha medo de altura, mas era racional ao ponto de perceber quando podia enfrentar o problema. Sabia que a segurança no lugar era bem rígida quanto aos brinquedos. Tanto que, para compensar o mico de quase ter passado mal, juntou-se com outros dois colegas e saltou de SkyCoaster. O vôo que experimentou com Alana tinha sido muito mais emocionante, mas a primeira experiência dele em queda livre pelo brinquedo foi indescritível.

A única explicação que ele dava pra si mesmo para toda essa paixão por brinquedos radicais era justamente toda restrição que a timidez lhe causava na escola. Ele não era bom em esportes convencionais, nunca conseguia chamar atenção sendo bom de bola. Pelo menos ali no Playcenter ele se soltava, já que no máximo andava com três ou quatro amigos.

Eles haviam pousado bem de frente para a entrada comum do parque. Alana já estava novamente sem as asas. Ela conduziu Tiago até onde normalmente ficava a bilheteria. Mas na placa que deveria confirmar isso a informação era outra: IDENTIFICAÇÃO DE ESCARLATES. O anjo se aproximou do guichê central e bateu no vidro. Em alguns segundos apareceu o primeiro ser vivo que Tiago vira até aquele momento, um homem de meia-idade, cabelos grisalhos. Ele se sentou atrás do guichê e empurrou pela passa na base do vidro protetor algo que lembrava um pequeno espelho de estojo de maquiagem. Alana pegou o objeto com a mão esquerda e, com a direita, arrancou em um gesto rápido e firme um fio do cabelo dela e o pousou no pequeno espero. O fio de cabelo pareceu derreter e manchar toda a superfície do objeto. Quando o vidro já estava todo coberto com algo muito próximo a tinta vermelha, o líquido começou a tomar a forma de letras. Primeiro foi a letra A, em seguida um L também maiúsculo. No fim, estava ali soletrado o nome ALANA.

Agora o pequeno espelho já estava de volta às mão do homem que aguardava no guichê. Ele olhou para o resultado, voltou a olhar para ALANA e disse:

— Bem-vinda, Alana, guardiã da Tropa dos Alados Vermelhos. A que devemos sua visita? Por qual motivo abandonou seu posto de vigia? Tenho o registro de que esteve fora dos ares por trinta horas. — Ou seja, o dia primeiro de novembro, que tinha tudo para ser único entre Tiago e Aninha, já era. O garoto pensou na ironia, mas se sentia compensado por estar em um coma divertido.

— Eu precisei atender a um 2342. E precisei cuidar de um dos filhos de Átomo. Ele perdeu sangue, precisava se alimentar ou perderíamos mais um. — Disse Alana, revelando mais do que queria. Ela não sabia até que ponto as informações precisavam ficar guardadas. Mas:

— Aqui está ele. Alguma coisa aconteceu e ele não se lembra de nada. Preciso levá-lo até a mãe dele. Ela deve saber o que fazer. — O olhar suplicante da garota anjo começou a preocupar Tiago. Mesmo que aquilo fosse mesmo um sonhos, ele vivia tudo como se estivesse assistindo a um filme em que era o protagonista. Por isso, não queria que nada desse realmente errado ou fosse um problema maior do que ele se recuperar e acordar numa cama de hospital.

O homem olhou para ele. Pareceu a Tiago que só naquele momento ele se dera conta da presença do rapaz. Mas a reação não foi muito diferente à que ele recebeu Alana.

— Muito bem. — Disse o velho. — Vamos ver no que vai dar. — E estendeu outro (ou talvez o mesmo de antes) espelho para Tiago, que ficou confuso, mas pegou o objeto.

— Vamos, faça o mesmo que eu fiz. Isso é um identificador de dignidade. Ele é diferente do meu, que serve pra identificar a que frota de Alados da qual faço parte. — Explicou Alana.

— Mas de que dignidade estamos falando. Dignidade pra quê? — perguntou Tiago.
— Na verdade, esse é um teste para identificar aqueles que são realmente filhos dela. Da sua mãe.

— Mas quem seria essa “minha mãe”? A minha mãe de verdade deve estar… Bom, deve estar muito preocupada comigo. — Tiago voltou a pensar na possibilidade do coma. Se era disso mesmo que tudo aquilo se tratava, como os pais deles estariam lidando com a situação. E na escola? Quais seriam os comentários? E se ele acordasse e descobrisse que ficara para ou até mesmo paraplégico?

— Ela é a mãe de todos os seres terrenos. É com ela que reside todo o ensinamento e poder que faz de vocês o que são. Sem ela, o poder que reside em vocês poderia transformar o nada em tudo, ou destruir o tudo até o nada sobrar. — Alana falou como se aquilo fosse uma espécie de oração ou mesmo algum tipo de ensinamento tirado de uma cartilha.

— Mas que poder é esse? O que esses terrenos podem fazer? — perguntou Tiago, mas quem veio em resposta não foi Alana, mas o velho do guichê:

— Vocês pretender terminar isso ainda hoje? Não era uma assunto urgente? Eu não tenho o dia todo. — Pra Tiago, essa última parte não parecia ser tão verdade. Imaginava que o velho era alguma espécie de funcionário público daquela São Paulo alternativa. Daqueles que sabem perguntar exatamente aquele documento que, com certeza, você não se lembrou de levar. Tudo pra fazer com que o atendimento dure o menos possível e, assim, ele possa dar uma mordida no torrone que colocou em cima da CPU do computador, embaixo da mesa, antes de passar para o próximo atendimento.

— Vamos, Tiago, faça a identificação. Suas dúvidas serão respondidas, mas não aqui. Estamos só perdendo mais tempo. — Tiago, então, começou a repetir o que lembrava dos gestos de Alana. Na parte do cabelo ela teve de ajudá-lo, pois ao contrário do dela, o dele era bem mais curto. Ela arrancou um fio e entregou na mão direita dele. O garoto deixou o cabelo cair no bizarro identificador. Nada aconteceu. Ou melhor, aconteceu de uma lufada de vendo soprar para longe o fino fio. Quando ele pensou em arrancar outro, Alana tirou o objeto da mão dele e devolveu para o guichê.

— Podemos ir agora? — ela perguntou para o homem.
— Catraca do meio, sigam pelo Windstorm até o labirinto. Lá, receberão mais instruções. — Respondeu o homem, com cara de “finalmente”.

— Vamos, Tiago. — Alana o empurrou gentilmente colocando uma mão em suas costas.
— Mas e o identificador? Meu cabelo saiu voando… Não era pra ele derreter como o seu e depois aparecer o meu nome? — perguntou Tiago.

— Eu disse que aquele era um objeto diferente. Aconteceu exatamente o que deveria acontecer. O vento levou seu cabelo, que acabou entrando dentro do parque. Se ele tivesse voado para longe, em outra direção, você deveria fazer o mesmo.

Tiago ouviu isso e imaginou Alana vestida de baiana, com um vestido branco, recitando simpatias para acertar a vida amorosa de algum incompetente. Começou a temer estar sendo conduzido pra dentro de algum tipo de seita religiosa, cheia de superstições. Pra ele, cabelinho sendo levado pelo vento era a mesma coisa que rezar pra algum gato preto não cruzar o seu caminho. Mas deixou passar, já que tudo até agora parecia simples loucura. Uma caduquice a mais outra a menos, tanto fazia.

— E agora, vai me dizer que cada um de nós vai receber um carimbo colorido nas costas da mão, pra podermos brincar à vontade nas atrações? — Tiago começou a levar tudo na esportiva. Mas sentia também que desde o lanche que teve mais cedo sentia-se mais confiante.

— Bom, carimbo a gente vai receber, mas não sei de que atrações você está falando. — Primeira vez que ele viu Alana com cara de que não estava entendendo nada. E naquele momento eles haviam passado pelo portal de entrada, exatamente pela catraca do meio. Tiago sentiu um leve ardor nas costas da mão. Quando verificou o que poderia ser, viu uma espécie de 8 tatuado em sua pele. Pra ser mais exato, aquilo havia sido gravado tão perfeitamente que parecia até uma mancha de nascença. Resolveu não perguntar nada, achou que receberia as mesmas respostas vagas de Alana. Ia deixar pra resolver tudo quando chegasse onde quer que a garota-anjo o estava levando (para o labirinto, para o labirinto).

E, finalmente dentro do parque, Tiago entendeu porque Alana ficou confusa quando ele perguntou sobre os brinquedos. Ele estava tão acostumado com o Playcenter que, enquanto estava voando e entediando o velho do guichê, nem reparou nos brinquedos. Eles não eram nada disso. As formas eram, sim, as mesmas do que Tiago se recordava. Mas estavam muito longe de ser meros brinquedos. Tudo era de verdade.

A barca Viking, um dos “brinquedos” mais próximos à entrada, por exemplo, era um grande veleiro e bastante real. As hastes que o transformavam em um pêndulo (a graça da atração) não existiam. Ao lado, onde estaria o famoso Splash, sonho dos jovens que adoravam se molhar (ou ver as meninas de camiseta branca se molhar, no caso dos meninos), parecia uma plataforma de treinamento de astronautas. Tiago viu algo parecido no filme Armagedon, quando os personagens treinam procedimentos debaixo d’água, pra simular a pressão espacial e falta de gravidade.

Tiago estava se sentindo em um mundo paralelo. Pior era que tudo ali parecia até mesmo mais real do que o mundo que ele sempre viveu, mesmo ele tendo certeza de que tudo não passava de um sonho. O sonho de uma pessoa que sempre procurou algo de fantástico no mundo. Pior, no fundo de seu coração, ele estava adorando aquilo tudo. Se estava mesmo em coma, esperava não acordar. Se tinha morrido, encontrara o real significado do céu.

Haviam chegado ao Windstorm. Ele lembrava do brinquedo com grande empolgação. Adorava ir para, lá em cima, abrir a boca e ter os lábios repuxados pelo deslocar delicioso do vento, por causa da velocidade dos carrinhos. O que ele viu, no entanto, não foi um trenzinho estreito com vagões de dois lugares. Tratava-se de verdadeiras miniaturas de trem-balas. Tiago lembrou mais uma vez de filmes de ficção quando olhou para a plataforma de embarque e encontrou uma espécie de portal circular (muito parecido com aqueles da série Star Gate).

— Pra que servem todas essas coisas? A propósito, que lugar é esse, afinal? — Tiago começava a ficar inquieto, principalmente quando percebeu um pequeno detalhe: tudo ali era magnífico, porém, completamente deserto. Se Alana fazia mesmo parte de uma tropa de seres alados, onde eles estavam? E quem usava aquilo tudo?

— Cada centro desses é obra de um terreno. A sua está logo à frente, onde ira se encontrar com Ela. A mãe mora dentro de cada uma dessas invenções e se manifesta de acordo com as necessidades de quem a procura — disse Alana, tentando explicar alguma coisa a Tiago, mas nem um pouco satisfeita com isso. Era nítido que ela queria deixar tudo para o momento em que ele encontraria com a tal mãe. Mas Tiago, agora, estava sedento de informação e iria tentar conseguir o máximo possível.

— O que são terrenos? Por que você acha que eu sou um deles? Eu não me lembro de nada disso, estou completamente perdido em meio a tudo isso. — Disse o garoto, completamente empertigado. Isso porque se deu conta, só agora, de que ele sentira um resquício de dor na entrada do parque, no exato momento em que fora marcado com o “carimbo” em forma de 8. Será que estava mesmo dormindo? Será que aquilo tudo era mesmo real?

Alana não respondeu a nenhum das perguntas do garoto. Resumiu-se somente a dar de queixo, apontando algo mais em frente. Era o brinquedo que ele conhecia como Labirinto. É óbvio que não se faz necessário explicar do que ele se tratava. Talvez mencionar somente que, ao contrário de todos os outros brinquedos que tinha visto e que estavam completamente diferentes, aquele ali era exatamente o mesmo: um daqueles tópicos galpões de parque, com teto baixo e uma espécie de vitrine seguida de outras na parte interior. Do lado esquerdo de quem se aproximava do lugar, havia a porta de entrada do lugar (que estava fechada com uma porta também de vidro). A garota-anjo se aproximou e repetiu o mesmo bater que usou para chamar o velho do guichê de entrada.

Dessa vez, foi uma senhora, aparentemente da mesma idade do velho anterior e, mais estranho ainda, muito parecida com ele. No entanto, ela parecia um pouco mais simpática:

— Olá, minha linda vermelha, já sei de tudo. Entrem. Deixe o garoto seguir o caminho dele até ela.

— Tiago, vá na frente. O caminho é da sua responsabilidade. — Alana, mais uma vez, parecia recitar algum frase decorada, como se fosse algo padrão a ser dito em situações como aquela. E se Tiago havia cooperado sem muita resistência até agora, resolveu não apelar pra drama e fez o que a garota pedia. Seguiu, então, por um pequeno corredor que acabava obrigando os visitantes a andar um atrás do outro.

Havia outra catraca mais à frente. Alana fez um gesto indicando que a mão dele deveria tocar a parte de cima que compunha o mecanismo giratório da catraca. Quando ele obedeceu, sentiu outro ardor, mas desta vez na palma da mão. Outro sinal de 8 havia sido praticamente impresso ali. Fato que pareceu surpreender Alana. Pelo reflexo de um dos vidros, ele percebeu a ruiva o olhando com um ar de admiração e, talvez, até mesmo orgulho.

— O quê? Por que está me olhando assim?
— Nada, só gostaria de tê-lo salvado antes. Mas acho que terei tempo suficiente para… — Alana foi interrompida assim que os dois passaram a catraca. Ela e ele ficaram boquiabertos com o que aconteceu. Não deu nem tempo de Tiago levantar o braço esquerdo (já que tinha aprendido com um amigo, que era amigo do filho de um funcionário do parque, que pra encontrar a saída facilmente bastava sempre virar à esquerda em cada esquina do labirinto). Primeiro alguns vidros começaram a se dobrar. Depois, o lugar começou a tremer com o movimento das paredes de vidro. Esquinas se fechavam, paredes se fundiam até que um único corredor, em linha reta, dos pés de Tiago até um trono prateado logo à frente.

— O que aconteceu? O que foi que eu fiz? — perguntou Tiago.
— Não faço idéia. Mas chuto dizer que não foi você. — Respondeu Alana, tão incrédula com o que acontecera quanto Tiago. — Isso nunca aconteceu antes! Mas acho que ela quer vê-lo o quanto antes.

— Bom, que seja!

Tiago começou a andar. Ao chegar no meio do caminho, sentiu as mãos de Alana se desvencilharem dos ombros dele. O garoto olhou para trás e não encontrou nada. Ele gritou:

— Alana, cadê você? — Mas ao se virar, deu de cara com o labirinto fechado novamente. Virou-se mais uma vez para a direção do trono de prata, que agora estava a menos de duas passadas dele. Antes vazio, agora que sentava ali era a mãe dele, de verdade. Eram os mesmos olhos verdes, herdados do avô, e cabelos castanhos bem claros (culpa do tingimento excessivo).

— Dona Luiza Pereira, o que a senhora está fazendo aqui? — Era assim como ele se dirigia à mãe. Ao pai, quase a mesma coisa: “Fala, seu tonho”. O pai dele se chamava Antônio. Antônio Pereira. Mas ele não estava ali. Era somente a mãe dele. Ela estendeu a mão direita à frente, com a palma aberta pra cima e os dedos fechados:

— Olha só o que você fez. Não está aqui nem por 2 dias e as coisas começam a ficar fora dos eixos. — Disse a mulher que, mesmo muito parecida com a mãe de Tiago, possuía uma voz completamente diferente. — Pelo menos conseguimos trazê-lo até aqui, de onde, graças a mim, nunca mais sairá.

— Senhora, eu não faço a mínima idéia sobre o que está rolando aqui. Eu fui trazido aqui. Não toquei em nada. E cadê a Alana, a garota-anjo que me trouxe? — Tiago começou a sentir um aperto no peito. Era preocupação?

— A alada terá a recompensa dela. Mas isso não é da sua conta. Importante é que está de volta e os negócios podem continuar. — A falsa Dona Luiza se levantou e foi em direção a Tiago. — Venha, abrace sua mãe. — Ela estava de braços abertos. Aguardando alguma reação do garoto. Mas ele ficou parado, tendo cada vez mais certeza de que tinha morrido, ao invés de ter entrado em coma. Aquilo provavelmente era o inferno.

O aperto no peito começou a virar uma dor. A cabeça dele iniciava uma leve enxaqueca. Ele olhava para a mulher de braços abertos e não conseguia se afastar. Na realidade, alguma praticamente o empurrava, passo por passo.

— O que você vai fazer comigo? Eu não fiz nada. — O desespero foi mais forte. Ele sentia que aquele abraço não seria nada amigável.

— Não tente resistir. Eu sou sua mãe, nada mais justo você compartilhar seu poder comigo. — Disse a cópia de Dona Luiza. Ela estava radiante, empolgada como uma criança. — Vamos, me dê… —Tiago gritou, não pela iminência daquele abraço. Ele gritou por causa da dor no peito e a pontada que sentiu na cabeça. Era como se alguma coisa estivesse sido quebrada entre o coração dele e seu cérebro e depois forçada a sair pela boca, em um grito de extrema dor.

O rapaz apagou novamente. Mas conseguiu ouvir o estilhaçar de vidros. Porém, não sentiu nenhum caco ou estilhaço. Ali perto, havia um certo silêncio. Sentiu também o chão do lugar… Ele tinha caído. Não sentiu dor nenhuma com a queda. Por alguns minutos parecia estar sozinho. Não ouvia mais a voz da estranha mulher. Alana tinha desaparecido. Mas o medo e as dores haviam passado. Ao pouco, Tiago começou a ouvir alguns sons de vozes abafadas e distantes. Os olhos dele começaram a ficar mais leves e ele sentiu que poderia abrí-los naquele momento. Foi o que fez, mas não fez de uma vez, pois havia luminosidade demais no lugar.

Tiago começou a imaginar que, por aqueles momentos únicos em que a sorte nos ajuda, algum daqueles equipamentos bizarros que estavam no lugar dos brinquedos do Playcenter tinha explodido. Ou qualquer outra coisa deu muito errado e ele, junto com a louca que parecia a mãe dele, foram apanhados de surpresa. Imaginou se a mulher ainda estava viva, mas quando finalmente abriu os olhos, não estava mais dentro do labirinto. Estava novamente dentro de um quarto, deitado numa cama macia, com lençóis brancos e outros “acessórios”. Um deles, por exemplo, era um tubo hospitalar que ele sentia dentro de seu nariz. Olhou para a mão esquerda que estava deitada ao lado do corpo e viu mais um tubo espetado ali por uma agulha intravenosa. Por instinto, acabou mexendo um pouco os dedos, o que provocou um leve ardor no local onde a agulha fora aplicada.

Será? Será mesmo que tudo não passou de uma ilusão criada pela mente fértil dele? Ele estaria aqueles dois dias, realmente, em coma? Bom, pelo menos estava aliviado por não ter morrido e, finalmente, por estar acordado.

A porta do quarto de hospital em que estava se abriu. Por ela entrou uma enfermeira que deveria ter por volta de trinta anos. Ela estava de cabeça baixa, conferindo uma prancheta que carregava algum tipo de prontuário médico. Quando ela encostou no pé da cama de Tiago e subiu o olhar para observá-lo, arregalou os olhos de surpresa (e com um pinguinho de “me dei bem”). Ela nem se importou em conversar com o garoto, deu uma corridinha empolgada para o corredor e sumiu da visão do garoto.

Não se passaram muito minutos e ela estava de volta, agora acompanhada por um médico. Os dois se aproximaram, cada um de um lado da cama. Removeram o tubo do nariz de Tiago e a enfermeira levantou um pouco a parte superior da cama, deixando o menino um pouco mais sentado do que deitado.

— Olá, Tiago. É uma alegria vê-lo acordado. Se não conseguir falar, não se preo… — Tiago podia, sim falar. E muito bem, por sinal:

— Onde está minha mãe, meu pai e minha irmã? Eles estão aqui. Algum deles está aqui? Preciso… — Agora foi a vez dele ser interrompido. Outra enfermeira entrava no quarto, mas ficou parada há meio caminho da porta oferecendo passagem para os familiares do garoto. Estavam ali a mãe dele e, para surpresa dele (imensa, por sinal), Aninha. As duas com olheiras profundas, mas que não afetavam a beleza que a felicidade de encontrá-lo acordado dava para o rosto delas. Ele olhou para a mãe dele, ainda desconcertado por tê-la imaginado com vilã de seu sonho, e sorriu quando ela o abraçou, agora aos prantos.

— Menino, não faça mais isso com a sua mãe. Seu pais quase morreu também. Ele nem tem ido trabalhar. Se não fosse sua irmã… — Ela soluçava. — Bandido, bandido… — Tiago imaginou que ela deveria estar praguejando o motorista do micro-ônibus, por tê-lo atropelado. Mas ela foi interrompida (não por ele).

— Dona Luiza, posso? — Era Aninha, enfrentando toda indelicadeza, mas não resistindo de ansiedade. — Ele também me deu um baita susto. — A mãe deu caminho pra menina, olhando-a com um carinho que empolgou Tiago. Agora, era a Aninha quem sentava ao lado do garoto. Mas ela fez mais do que abraçá-lo, mas deu um leve beijo no rosto de Tiago, tocando parte do lábio dele.

Isso deixou o rapaz mais vermelho que nariz gripado. Porém, satisfeitíssimo.

— Nossa, meninas, desse jeito eu vou querer ficar em coma mais vezes. — Disse Tiago, recuperando toda aquela confiança que descobriu ter durante o sonho. — Quanto tempo eu fiquei apagado? — Perguntou finalmente.

Quem respondeu foi Aninha, em um tom de “do que você está falando, Tiago?”:

— Tiago, quem disse que você estava em coma? Você foi sequestrado. Ontem um policial te encontrou desmaiado próximo à Marginal Tietê, ali onde a gente consegue ver o SkyCoaster do Playcenter bem de perto.

Agora, a informaçõa que deixou Tiago desorientado. Foi a mãe dele quem informou:

— Nós estávamos à sua procura já há quatro meses.

1 comentário to “Anjos…”

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