Capítulo 1
- Tiago
Eu sou Venceslau Ondrej. Alguns já me conhecem. Outros podem procurar por minha história em sebos de fim de mundo. Não vivo como uma pessoa considerada comum, tenho habilidades que descobri que todo ser humano possui (mas por simples preguiça não se dão conta delas).
Eu não vivo para sempre. Mas vivo mais do que o normal. Meu corpo se adapta com a passagem do tempo, graças a um tipo de controle mental que aprendi a desenvolver. Aprendi com quem? Bom, isso não pode vir ao caso agora. É história para outras páginas, não para estas. Aqui, não contarei a minha vida, mas de um garoto que descobri.
Por quê? Digo que apesar dessa história não ser sobre mim, a função que me foi dada é a de vigilante. Eu fui ensinado e em retribuição recebi essa responsabilidade. Veja-me como um anjo da guarda, um protetor. Antes eu fui o que chamavam de caçador. Hoje eu apenas tento proteger quem é importante, porém, não possui condições de se defender… Ainda.
O meu protegido é conhecido no mundo dele como Tiago Pereira. Quem o visse por aí não perceberia nada de especial. Ele não passava de um mero pirralho. Seus contemporâneos o tomariam, no início dos seus 14 anos, como um simples aborrecente: uma mistura de adolescente temperado com falta de experiência, maturidade e comportamentos, digamos, flutuantes.
Tiago estava na 8ª série do ensino fundamental brasileiro. O ano é o de 2002. Ele estava feliz naquele fim de tarde. Como eu sabia disso? Bom, digamos que algumas das minhas habilidades podem me tornar um narrador bastante onisciente. Tanto que eu sabia que Tiago, na verdade, não estava somente feliz. Ele estava radiante. O aniversário dele é daqui a dois meses, em janeiro.
Se tinha uma coisa da qual Tiago não podia se queixar era a data do aniversário dele. Dia dois de janeiro. Ele nunca precisara passar mico na escola com colegas gritando parabéns e fazendo brincadeirinhas bobas. Especialmente brincadeiras como a que fizeram no mês passado com o Marcos Gordinho. Tudo bem que ele nunca se preocupou em ficar realmente amigo do garoto mais zoado da classe. Mas nunca contribuiu para a ridicularização do pobre.
Os garotos e algumas meninas da sala dele fizeram um plano para tentar desencalhar o Marcos no aniversário dele. Mas arrumaram como pretendente pra ele a professora Luiza, de Ed. Artística. Detalhe: ela é a professora dos sonhos de qualquer aluno. Na verdade, ela é a professora dos sonhos de qualquer garoto, adulto, velho… Até Tiago era de certa forma apaixonado por ela. Mas para sorte dele, ele tinha a Aninha que, ainda não era oficialmente sua namorada (ainda).
No dia do aniversário do Marquinhos a professora Luiza foi surpreendida quando entrou na sala com uma mensagem de amor na lousa. A mensagem era o simples clichê: “Eu te amo, professora Luiza!”. Mas alguém fizera uma montagem com uma foto do Marcos e outra da professora. Os dois estavam envoltos de um coração rosa, uma edição precária de algum aluno que não tinha mais o que fazer com o computador.
E, por azar, o Marquinhos naquele dia não tinha chegado à sala. Sem contar que o garoto era sistemático: assim que botava os pés na escola, ia ao banheiro. Coisa de mãe, que tem mais medo do filho se mijar nas calças do que ele mesmo deveria ter. Esse hábito foi a ruína de Marquinhos, que acabou entrando alguns minutos depois da professora. Quando ele entrou na sala, deparou com a bela Luiza ralhando com todos, na tentativa de descobrir que tinha feito aquilo. Quando ela viu Marquinhos parado à porta, boca aberta e olhos arregalados em direção à lousa, disse:
— Não se preocupe, Marcos. Eu sei que não foi você, que é um fofo. E se você fosse mais velho, teria mais chances comigo do que esses preconceituosos.
Pronto, o que a professora achou que ajudaria, pois ela, apesar de ignorar, sabia o efeito que causava nos garotos da escola (e até em alguns professores… Ou mesmo com o diretor Lucas), surtiu efeito completamente contrário. Todos os alunos (até mesmo Tiago não resistiu) soltaram o típico “hummm, hummm!”. E alguns “vai lá garanhão” também foram pegos no ar. As risadas abafaram todas as tentativas da Profª Luiza de calar a classe, os desaforos e ajudar o pobre Marquinhos.
A zoação foi tanta que o garoto acabou com todas as recomendações da mãe. O estresse deve ter desencadeado algum tipo de processo químico no estômago do Marquinhos, que não só se mijou todo como se borrou também. A imagem ficaria marcada pra sempre. No consciente do garoto, o trauma das risadas se amplificando e da ridicularização se transformando em ofensas. Tiago não riu, mas não fez questão de acompanhar a professora e alguns colegas que ficaram fragilizados com a situação do aniversariante.
Marquinhos nunca mais foi visto na escola. Dizem que foi transferido pra um colégio particular. Alguns boatos sugerem até que os pais dele estão processando a escola por permitirem que o filho deles passasse por uma situação vexatória como aquela. Por coisas assim, Tiago era feliz por seu aniversário ser no período de férias. Melhor ainda, sempre achou que isso dava a ele ainda mais vantagens quanto aos presentes, já que era época em que os pais dele mais faturavam e estavam, herr… Mais sensíveis, por causa do clima de início de ano.
Os pais dele eram comerciantes. Eles tinham uma loja de produtos de informática na Rua Santa Efigênia, em São Paulo. A rua é daquelas de comércio popular, onde camelôs e lojistas brigam pelos compradores. A loja dos Pereira era, na verdade, um quiosque de aproximadamente 3 metros quadrados, em uma das galerias da rua, um pouco depois da Rua Timbiras. Os produtos vendidos ali não chegam a ser contrabandeados, Tiago dizia pra si mesmo.
Os Pereira tinham alguns parentes que moravam fora do Brasil, mas mantinham contato com o pais. Então, eles mandavam os produtos por portadores que entregavam a mercadoria como brindes. Então, o imposto de importação era reduzido e em muitos casos, nulo. Mas Tiago nunca fora muito a fundo nesse assunto, mesmo adorando fazer visitas periódicas à loja, já que ele era verdadeiramente nerd (por que não dizer um geek genuíno). Do tipo que nunca precisou pagar por um CD ou filmes sequer desde que aprendeu a usar programas de compartilhamento de arquivos.
Ele adorava dizer aos colegas que havia encontrado um clássico dos quadrinhos pra baixar da Internet. Ele possuía tubos de DVDs cheios de arquivos, alguns ele até vendia entre colegas que compartilhavam de seus gostos. Sempre se gabava por ter assistido um filme que ainda não tinha sido lançado no Brasil, mesmo que a qualidade de imagem não fosse das melhores.
Às vezes, nesse caso em particular, Tiago até mentia. Dizia que assistia antes para não se preocupar com o filme quando saia com alguma garota. Mesmo que as únicas garotas com quem já tenha ido sozinho ao cinema foram a mãe ou a irmã dele. No segundo caso, ele foi com a irmã por causa de um trabalho da escola. Isso porque Alice era formada em cinema e o filme em questão era um desses documentários que deixam de ser interessante quando os créditos iniciais acabam (ainda mais quando você precisa prestar atenção e anotar os elementos mais importantes ao mesmo tempo).
Mas Alice não era o tipo de irmã importunante. Ela era 10 anos mais velha que ele, por isso, os dois não tiveram muito tempo para as rixas comuns entre irmãos. Na verdade, Tiago era fã da irmã, que se formara em cinema, porém, acabou empregada em uma empresa de publicidade. A área de cinema no Brasil é pra poucos. Mas a carreira da irmã também trazia benefícios para Tiago como, no caso dos documentários que precisava assistir, quase nunca precisava se preocupar com ingresso. E quando tinha de pagar, era menos do que a meia de estudante.
Até para algumas salas de cinema, de filmes ainda a serem lançados no pais, acabava indo junto com a irmã. A única coisa que irritava Tiago era a mania da Alice de insinuar que ele precisava arrumar logo uma namorada. Na verdade, ela dizia que ele tinha de ficar com as meninas, aproveitar essa época pra experimentar (antes que ele começasse a namorar sério e perdesse essas oportunidades).
Claro, como se isso fosse uma tarefa fácil pra um garoto como ele, que nunca fora dos mais atraentes e, pra piorar, era nerd. Não que nerd seja algo que as garotas pudessem identificar tão facilmente, mas acontece que ele não conseguia se fazer notar de forma a se tornar sedutor. Mas, no fundo, no fundo, Tiago era o tipo de garoto que adora fantasiar e é romântico de natureza. Ele chegava até a ficar inconformado quando via caras que conseguiam namoradas com tanta facilidade e ainda as traiam com outras garotas (algumas da mesma escola).
E ele é apaixonado por uma garota. Ela já foi citada. Ana é o nome dela. A eterna Aninha para Tiago. Uma menina que entrara naquele ano na escola de Tiago. Ela era um ano mais velha que ele, já que acabou perdendo um ano de escola por problemas familiares que Tiago só tinha ouvido boatos.
Alguns deles diziam que houve até mesmo o envolvimento da polícia federal. Mas todos os estudantes foram proibidos de perguntar à garota qualquer coisa sobre o assunto, com ameaças de expulsão. Por sorte, Aninha era uma garota envolvente. Ela parecia ser muito mais madura que os outros estudantes e era isso que encantava Tiago.
Tudo bem, era apenas um ano de diferença, mas Tiago desconfiava que seja lá o que ela tenha sofrido, fez com que ela se aproximasse muito mais da professora Luiza do qualquer outra garota ali. Alguns garotos (aqueles mais confiantes) tentavam investir algum tipo de sedução pra atrair a atenção de Aninha. Mas ela nunca dava bola e, mesmo não conversando muito com Tiago, sentava do lado dele. E quando um garoto tentava uma cantada, ela virava pra ele e sorria, balançando a cabeça com um sorriso de desdém contra os abusados.
Eram esses momentos que faziam a mente de Tiago viajar. Esse sorriso de canto derrubava o pobre adolescente, que nunca tinha a mesma coragem dos outros colegas, mas alimentava a fantasia de que ela gostava dele. Inclusive, quando ele dormia, costumava inventar situações que o ajudavam a conquistar a bela Aninha. Na maioria dos casos, ele se via como um super-herói de quadrinhos. Ele adorava poderes como superforça e hipervelocidade. Sempre teve vontade de surpreender os galãs da classe sendo muito mais rápido que eles nas aulas de educação física (coisa que na realidade era completamente o contrário).
Ele dizia pra si mesmo que odiava esportes… Talvez pra se enganar, já que na verdade o problema todo era ele não se dar bem em praticamente nenhum. Nem em vídeo games o garoto conseguia jogar futebol direito, para vocês terem uma idéia. Isso porque o garoto é viciado em games.
Mas para ele, legal mesmo eram jogos como Monster Hunter, Final Fantasy ou mesmo simuladores de realidade ou pessoas. Já chegou a passar horas jogando The Sims ou Sim City. E essa era uma coisa que ele descobriu ter em comum com Aninha. Por isso ele tinha quase certeza de que aquela seria a tarde em que a vida amorosa dele iria, pelo menos, começar a mudar pra melhor.
E é aqui que começamos realmente a nossa história, em uma sexta-feira do mês de novembro de 2002, exatamente dia primeiro. O professor de história havia passado um trabalho sobre “Eventos da atualidade que marcarão o futuro”. Era um trabalho pra ser feito em dupla. Aquilo era maravilhoso. Bom, seria se Tiago não fosse tímido o bastante para convidar Aninha para fazer o trabalho com ele. Mas que chances ele tinha se, na certa, a garota certamente preferiria fazer dupla com outra garota?
Ele já estava se vendo convidado por algum dos poucos colegas homens que tinha. Imaginou até que seria com Jefferson, que sempre acabava fazendo os trabalhos de história com ele (interessado, claro, em ir à casa de Tiago mais para experimentar o playstation 2 dele). Tiago sempre acabava fazendo a maior parte do trabalho, deixando a Jefferson somente a tarefa de gastar com impressão e apresentação. Ele odiava seminários…
Mas alguma coisa aconteceu aquele dia. Ele nem precisou esperar muito, já que o professor queria os nomes das duplas na mesa dele até o final da aula, que terminaria em 10 minutos. Quando ele pensou em se virar em direção dos colegas que poderiam ser candidatos ao fazer o trabalho com ele, sentiu a mão de um anjo pousando em seu ombro. Quando ele se virou, pensou que tinha feito alguma coisa errada ou então Aninha queria saber que horas eram… Mas ela se antecipou e disse:
— Tiago, tive uma ideia para esse trabalho, acho que você vai gostar. Isso, claro, se me aceitar como seu par pra tarefa. Pode ser?
“Que ultraje”, ele pensou. Como assim se ele aceitasse? Quem ela pensava que era? Ou melhor, quem ela pensava que ele era? Ele demorou um pouco pra raciocinar a resposta, mas disse alguma coisa mesmo assim:
— Sem dúvida que aceito. É lógico que sim. — Olhos arregalados e perplexos em direção à garota, que riu. Mas não foi a mesma risada de deboche que dava para os outros garotos. Era, na verdade, um risinho de divertimento. Como se ela soubesse que a pergunta dela fora estúpida, já que ela certamente sabia que Tiago era louco por ela. “Será uma piada?”, o garoto pensou. — Por que você quer fazer o trabalho comigo?
— Pera aí! Já te explico. — Ela se levantou e foi em direção à mesa do professor. Quando chegou lá, pousou uma folha de papel de caderno. Tiago deduziu que ali estavam o nome dele e o de Aninha. Aninha e Tiago. Tiago e Aninha. Imaginou até alguns corações, pingos nos is em forma de coração, naquela típica letra cheia de desenhos que as meninas adoram fazer. Ficou nesses pensamentos até a garota sentar de supetão na carteira à frente dele, agora vazia, já que a maioria dos alunos começava a se retirar da sala.
— Eu pensei em abordarmos a queda do World Trade Center usando alguns jogos de vídeo game. Dentre eles, pode ser o Flight Simulator, junto com o Sim City. Inclusive, se a sua irmã puder nos dar uma força, quem sabe não fazemos um vídeo sobre o atentado de 11 de setembro. — Tiago estava pálido. Nunca tinha ouvido tanta coisa encantadora saindo da boca de uma garota. Ela não estava falando de fazermos uma pecinha de teatro pra abordar o tema; ela não estava falando de assistir a documentários sobre a queda das torres gêmeas… Ela estava propondo fazer um vídeo jogando dois games de computador (que ele adorava). Ele só conseguiu responder:
— Claro, claro. Com certeza? Quando fazemos isso?
— Bom, a gente precisa entregar o trabalho daqui a duas semanas. E se formos fazer algo assim de forma realmente apresentável, melhor começarmos agora. Eu só preciso ir pra casa, tomar um banho e trocar esse uniforme imundo. Daí vou pra sua casa, onde teremos todo o material que precisamos, certo?
— Na minha casa? Você quer ir fazer trabalho na minha casa? Mas… Meus jogos e computador ficam no meu quarto. Você não vai se sent…
— Melhor ainda. — Ela o interrompeu. — Assim a gente não atrapalha ninguém da sua casa (e ninguém vai nos atrapalhar também). Pode ser?
“Outra pergunta estúpida”. — É claro que pode. Vai ser uma honra… — ele mesmo se interrompeu. Percebeu que iria gaguejar se continuasse. — Vai ser bem prático fazermos lá em casa mesmo — concluiu.
— Ótimo. Você é um amor — disse Aninha, depois de registrar a timidez de Tiago. Ela, definitivamente, sabia o efeito que causava nele, desde o primeiro dia de aula. Mas o garoto era tão imaturo que se ela não tomasse a iniciativa, os dois continuariam a trocas somente sorrisos e nada mais.
Ela também gostava dele, justamente pelo jeito que ele a olhava. Não era o mesmo olhar dos outros meninos. Ele não a olhava como um troféu a ser conquistado ou um segredo a ser decifrado. Ela sempre teve que fugir do passado dela, daqueles momentos opressivos e Tiago parecia ser um garoto que não teria coragem de atravessar aquela barreira sem que ela desse um sinal do caminho correto para o grande mistério.
Na realidade, aquilo não era algo que deveria ser lembrado. Ela mesma já tinha esquecido e superado. Superado de uma forma que nenhuma outra garota poderia superar. Ela seguiu em frente, com o mundo. Sem deixar que o passado doloroso a prejudicasse. Mas como todas as histórias que tenho para lhes contar, ainda não é hora dessa vir à tona. Isso porque nosso personagem estava quase em choque com o “Você é um amor!”.
— Agora eu preciso ir. A gente se vê às quatro? Vou direto pra sua casa ou quer me encontrar em algum lugar? — “Podia ser ali mesmo, na verdade eles nem precisavam se separar”, Tiago pensou. Ele teve um certo pavor de se ver perdido depois de um sonho fantástico. Queria, caso essa fosse a verdadeira realidade, pelo menos prolongar aqueles momentos. Até que a mãe dele o acordasse para, aí sim, ir pra escola. Chegou até a pensar que, se o professor realmente pedisse algum trabalho, iria ele tomar a iniciativa e convidar Aninha para fazer dupla com ele.
— Quer que eu acompanhe você? — Ele perguntou, finalmente. Mas a coragem não foi tanta e ele recuou. — Até o portão do colégio, claro!
— Hum! Pode sim. Só não pela pra levar meu material. Seria piegas demais! — Divertia-se, Aninha. Mas nesse caso ela nem precisa se preocupar. Tiago estava longe de ser o primeiro prodígio do cavalheirismo. Sentiu-se um pouco envergonhado por nem ao menos ter sugerido carregar as coisas da amiga, no entanto, pela resposta dela, achou que acertou mais do que errou. Os dois saíram finalmente da sala, que já estava vazia e pronta para ser fechada pelos espetores de alunos.
Aninha morava próximo à estação Parada Inglesa, e Tiago em um apartamento na Rua Alfredo Pujol. Ambos na Zona Norte de São Paulo. Naquele dia os dois se acompanharam até o ponto de ônibus onde pegavam a condução para casa. Normalmente, eles acabavam se “trombando” (como a garotada gostava de dizer) por lá, quando a coincidência e sorte de Tiago ajudavam. Mas o dia 1° de novembro de 2002 já se tornara inesquecível pra ele. E ia ficando cada vez melhor a cada palavra que trocava com Aninha. Não que os dois nunca tivessem conversado. Porém, o papo entre eles quase nunca saia da sala de aula. Raramente trocavam algumas palavras nos intervalos e aulas de Educação Física. Aninha fazia parte do núcleo das meninas quase populares da escola (aquelas que ainda são legais com alguns garotos). Sempre soube se enturmar, com uma desenvoltura bastante diferenciada das outras meninas da idade dela. “É uma moça, já!”, diziam os professores e espetores. Eles sempre mantinham contato com ela, pra saber se estava tudo bem. O interesse era outro, Tiago desconfiava. Pra ele, o maior medo dos dirigentes da escola era que algum aluno ultrapassasse limites que podiam fazer com que a escola sofresse outro processo.
Os dois chegaram ao ponto de ônibus, para o desespero de Tiago. E isso não aconteceu somente pelo fato dele precisar se conformar que em alguns minutos o ônibus dele ou de Aninha chegaria para separá-los (mesmo que os dois ainda fossem se encontrar ainda naquele dia). O problema maior que Tiago precisou enfrentar foi a presença de alguns garotos que faziam parte do núcleo popular da escola. Pior. Aqueles ele sabia que tinham amizade com Aninha. E um deles, o Júnior, ele também sabia que já teve alguma coisa com a garota. Alguns amigos dele e outros colegas da sala dizem que os dois tinham ficado por um tempo. E por mais que tudo aquilo não passasse de boato, Tiago não sabia o que era realmente verdade (lógico, perguntar isso pra Aninha nem ferrando). No entanto, a presença do possível e forte adversário fez com que toda a esperança daqueles 10 minutos que passaram se transformasse em um “rebuliço” no estômago. Sentiu até um aperto de angústia no coração. Como ele desejou que o ônibus dela chegasse naquele instante. Por azar, foi o dele que se aproximou primeiro. Tiago até pensou em fingir que não viu, mas Aninha estragou o disfarce:
— Tiago! — ela falou, quase como um bronca. — Não é esse o seu ônibus? Corre, senão vai perdê-lo. — O pobre garoto só conseguiu pensar em improvisar um “putz” engraçado, como para dizer “Olha, como sou distraído!”. Correu, bateu na porta e pediu para o motorista abrir. Enquanto a porta hidráulica abria, Tiago aproveitou os segundos para olhar pra Aninha. Ela se despediu dele com um tchau, dizendo:
— A gente se encontra mais tarde! — Mas isso não aliviou em nada a tensão de Tiago, que subiu as escadas do ônibus, passou a catraca eletrônica quase se esquecendo de pagar o cobrador. Ele tentava manter o olhar no grupo de estudantes, para tentar decifrar a reação de Júnior à frase dita por Aninha. Será que ele perguntou pra ela o motivo dela se encontrar com Tiago mais tarde? Ele poderia tentar interferir de alguma maneira. Talvez convidá-la pra sair com ele, ir pra algum cinema e deixasse o compromisso do trabalho pra outro dia. Ou quem sabe pior. Aninha podia ligar pra ele em alguns minutos dizendo pra ele bolar alguma coisa para o trabalho e, depois, ela faria as impressões e a apresentação.
Esses pensamentos o fizeram se arrepender de ser tão covarde. Ele queria ter ignorado a ordem de Aninha pra ele subir naquele ônibus. Ele queria ter a coragem de ele convidar ela pra esquecer de qualquer trabalho e sair com ele. Os dois (e somente eles) poderia ir juntos ao cinema. Ele a deixaria escolher o filme, não importava. O que Tiago queria era ver Aninha longe do Júnior. E aquilo o atormentava tanto que chegou a doer. A cabeça dele começou a latejar, como se todos os arrebites que seguravam os apoios do ônibus estivessem presos ao cérebro dele e, naquele momento, resolvessem começar a se soltar. Tentou se concentrar em outras coisas. Mas só conseguiu se acalmar mesmo quando voltou a pensar em Aninha, mais especificamente dos momentos anteriores ao insuportável “momento do ponto” (como o episódio ficaria marcado, para sempre, na memória de Tiago).
Ela havia sido gentil com ele. Mas foi ele quem construiu toda aquela fantasia e nutriu toda aquela esperança. A garota parecia ser assim com todo mundo. Agora, quando não estava sob influência da voz dela, Tiago podia muito bem se lembrar de momentos em que Aninha dizia “Você é um amor” ou mesmo “Você é um fofo (ou fofa)” para outros colegas. Por que acharia que, logo com ele, isso significaria outra coisa além de um jeito da garota se mostrar cordial? Como a paixão pode deixar uma pessoa… Ou melhor, um adolescente tão idiotizado? E foi assim que, dessa vez, Tiago se distraiu de verdade e perdeu o ponto em que deveria descer.
“Saco, vou ter de andar ‘uma cara’ agora!”, pensou ele, com gíria e tudo. Levantou do assento, deu o sinal e esperou. Por sorte, o transito impediu que o motorista parasse exatamente no ponto. Ele encontrou alguns metros pra trás e, por gentileza (coisa rara naquele negócio), abriu a porta pra quem quisesse descer. Tiago desceu logo na esquina da Rua Gabriel Piza. Resolveu entrar ali mesmo e subir a Voluntários da Pátria, até a Alfredo Pujol. Mas ele decidiu atravessar para a outra calçada da Gabriel Piza, ainda próximo à Av. Cruzeiro do Sul. E ainda distraído com o assunto do dia (não conseguiria tirar a imagem de Aninha e Júnior juntos da cabeça nem se a cortasse fora), só olhou automaticamente para ver o semáforo de pedestres livre pra ele passar. Nem teve o cuidado de olhar para o movimento na Cruzeiro e perceber o micro-ônibus que vinha em sua direção, com o letreiro de RESERVADO.
Certamente o motorista queria chegar o mais rápido possível à garagem. Eram duas opções: ou ele estava atrasado para o serviço (o que era pouco provável, pelo horário do dia); ou estava atrasado para algum compromisso particular. Ou melhor, pode ter aí um terceiro motivo: simples pressa. A mais estúpida e egoísta pressa do cidadão paulista. Ou podia ser egoísmo estúpido, já que naquela cidade nem egoísta as pessoas sabia ser realmente. Elas se engalfiam pra entrar e sair de um ônibus, quando uma simples organização resolveria o problema de todo mundo. Ou mesmo aquele motorista, que com a pressa ia matar um adolescente de 14 anos. Tiago só teve tempo de ouvir o buzinar do veículo e sentiu o baque. Foi no peito, como se uma mão o tivesse empurrado em direção à calçada. Ele caiu de mau jeito, torceu o tornozelo e, ele acreditava, tinha aberto o pulso com o impacto da mão no chão. E o apoio mais prejudicou do que ajudou. Tiago acabou se desequilibrando na palma da mão e acabou batendo a cabeça no chão de cimento da calçada. A princípio ele não sentiu dor. Conseguiu, inclusive, se virar pra tentar entender que fim levou o micro-ônibus. Por 1 segundo ele imaginou ver o veículo há alguns centímetros dele, em cima da calçada.
Mas ele se esqueceu de tudo o que acontecera até aquele momento quando viu o que viu. Até mesmo Aninha e Aninha junto com Júnior foram praticamente enxotados da memória recente do garoto. Ele… e não só ele. Praticamente toda Av. Cruzeiro do Sul estava parada. Eu diria até que o bairro de Santana inteiro deu um jeito de olhar o que acontecia.
Uma garota ruiva vestindo um vestido verde escuro e botas cano longo da mesma cor. O vestido tinha um decote nas costas. Tiago percebeu isso porque ela estava virada contra ele e parecia segurar o ônibus com as duas mãos. O veículo estava amassado (bem amassado) e quase envergado pelo meio parachoques, como se ele tivesse batido em um poste que tivesse sido colocado ali na horizontal. Ela então se virou para Tiago e perguntou:
— Você está bem?
Tiago demorou trinta longos segundos para responder. Ele tentava avaliar a situação, a garota assustadora e ao mesmo tempo linda-demais-caramba-meu-deus, mais o olhar das outras pessoas, que agora começavam a se voltar para ele.
— Acho que quebrei meu braço. — Ele disse, tirando coragem de não se sabe onde. E essa resposta pareceu enfurecer a garota, que voltou a segurar a frente do micro-ônibus com as duas mãos. E dessa vez ela começou, para espanto e desespero de muitos ali presentes, a levantar o veículo. O que subiu primeiro foi a traseira. O motorista do veículo estava apavorado. Ele não parecia estar machucado (pelo menos não gravemente, menos até que Tiago). Mas o que veio a seguir o deixou chocado: a garota começou a chacoalhar o ônibus. Isso fez com que o motorista começasse a bater na janela, banco e quase a flutuar ali dentro como uma moeda em um cofrinho. Pra sorte dele (se é que podemos considerar alguma coisa como sorte numa situação daquela), ele tinha colocado o cinto. Foi então que a ruiva segurou e conseguiu praticamente arrancar a janela esquerda, na qual estava o motorista com uma das mãos. Depois, ela puxou o motorista pelo banco e o fez cair também no chão.
Quando pareceu que o episódio estava terminando e o motorista levaria algum tipo de surra de super-heroína, ela começou a arrastar o micro-ônibus mais para o centro da avenida. Bom… nem preciso mencionar como estava o trânsito ali naquele momento. Sem contar as viaturas policiais que acabavam de chegar e a se posicionar. E antes que qualquer ameaça ou pedido de rendição pudesse ser feito por eles, a garota começou a (acredite) girar. Junto dela, girava também o veículo. Se alguém já viu uma prova de arremesso de peso tem uma vaga idéia de como aquilo podia parecer. Então aconteceu o momento de largar o peso e ver até onde ele iria, antes de cair. Mas o veículo não caiu. Ele continuou subindo em direção ao céu, como um verdadeiro foguete com trajetória sempre ascendente.
Tiago tentou olhar pra ver até onde o ônibus subiria. Mas a dor no tornozelo e na cabeça já estava insuportável. Pra piorar, ele começou a sentir sangue escorrendo pelos olhos dele. E quando a visão começou a ficar turva, Tiago se sentiu suspenso. A cabeça caiu para trás e outra sensação daquela começou, mas agora ele se sentiu flutuando. Primeiro, sentiu frio. Depois ouviu uma voz doce: “Fique tranqüilo, meu anjo! A ajuda já está aqui!”.
Então ele desmaiou, lamentando não poder contemplar o rosto daquela garota mais uma vez.
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Cara! Genial!!! Li tudo e agora ta f0did0: quero segundo capitulo!!! Ta demais a historia cara!!! Avante!