[EXCLUSIVO] AJUDE UM REPÓRTER…

… que os internautas te ajudam. Esse poderia ser o lema dos jornalistas, porém, ainda falta para muitos descobrir como a grande rede de computadores pode ajudar na hora de se produzir uma matéria.

Na verdade, por incrível que parece, ainda existe, entre as grandes e pequenas empresas do conglomerado da mídia, aquelas que aplicam o que chamo de DISCRIMINAÇÃO TECNOLÓGICA: o bloqueio dos serviços de redes sociais para os jornalistas no ambiente de trabalho.

Mesmo entre os profissionais também há os tecnofóbicos, que preferem criticar ferramentas como Twitter e Facebook por não saberem usá-las. Alguns, inclusive, acusam a internet de tornar o jornalismo preguiçoso, que antes dela a conquista das fontes era mais suada. Como se isso fosse um aval de qualidade para o que se pretende na hora de publicar um texto em um jornal impresso, televisivo ou de rádio.

Pena que nem todos os jornalistas pensam como Gustavo Carneiro, talvez pelo fato dele NÃO SER jornalista. Formado em relações públicas, ele decidiu que, para entender melhor o que os profissionais de comunicação precisam, criaria uma ferramente de interação a princípio bastante simples, mas que se tornou incrivelmente funcional.

Esse atalho que o @ajudeumreporter criou entre jornalistas e fontes surgiu em 2010. Lembro que na época ainda dividia minha vida como produtor de duas emissoras de TV, a CNT (da qual sai mais para o final do mesmo ano) e a RIT. Acredito que fui um dos que mais fez pedidos pela hashtag #arpo, sempre em busca daquele personagem albino-manco-da-perna-esquerda-amputado-da-direita-e-cego-ao-12-anos-e-meio.

E não é que nas mais impossíveis missões a ferramenta surpreendia? O interessante é que antes do Ajude um Repórter surgir o twitter já era utilizado por alguns jornalistas como forma de crowdsource (numa tradução livre, “força da multidão”).

Aqui em Belém, temos um perfil de twitter chamado @belémtrânsito no qual várias pessoas mandam informações relacionadas ao trânsito na cidade (acidente, operação, blitz, protesto, interdição de rua, buracos, semáforos…). É muito útil, mas quem escreve são pessoas comuns que não têm o conhecimento do que é ou não notícia. As vezes, o que postam como se fosse algo grandioso, por exemplo, não passa de um colisão simples. Então, é preciso apurar tudo.” (da @flaviadiasss)

Detalhe: eu consegui esse depoimento da Flávia, que é de Belém, graças ao site lançado esse ano, o Ajudeumreporter.com.br. O projeto do site saiu do papel e se tornou realidade porque Carneiro (que tem a minha idade, 27 anos) acertou em cheio, na veia mais sensível do trabalho de todo jornalista (em especial, do chamados PAUTEIROS e PRODUTORES): a conquista dos personagens.

Pra quem não conhece a terminologia, personagem no jornalismo não é uma fonte comum. Ele, ou ela… é aquela pessoa que vai servir pra ilustrar, pra dar razão para uma reportagem. Por exemplo, não dá para eu falar sobre DEPRESSÃO PÓS-PARTO MASCULINA sem provar que ela existe. E como a gente faz isso? Achando um pai que passou por esse problema, para contar a história dele e convencer o público sobre o problema. Mas só quem está na área pode dizer com propriedade como é difícil encontrar um personagem assim.

Já o que EU chamo de FONTE COMUM são o que na prática chamamos de ESPECIALISTAS. Comum porque, sem desmerecer a importância, são BEM mais fáceis de conseguir. No mesmo exemplo da depressão pós-parto masculina, pra achar um psicólogo que explique sobre esse distúrbio basta ligar pra uma universidade ou alguma instituição de saúde conceituada e pedir auxílio da assessoria.

Essas fontes também chegam aos montes via releases das assessorias de imprensa, que cada vez menos têm prestado o serviço que dá nome à função. Algumas estão mais para “desassessoria”, pois acabam se aproveitando até mesmo de ferramentas como o Ajude um repórter para VENDER seus clientes. Isso sem nem mesmo se preocupar em ter certeza de que o especialista realmente estará disponível e apto para falar do assunto solicitado.

Ou seja, o trabalho dos jornalistas que se adaptaram às novas tecnologias, ao social media, é tão complicado quanto o da época em que só era possível entrar em contato com as fontes (personagens e especialistas) via telefone ou pessoalmente.

Sem dúvida a tal emoção da época dos folhetins não existe mais… Mas diria que o filtro precisou evoluir. Afinal, do mesmo jeito que é fácil fazer um pedido de fonte via rede social, é fácil receber retornos que não passam de elefantes brancos: o assessor acha que seu cliente é importante para uma pauta ou uma pessoa vê o anúncio e acha que pode ser uma boa personagem pra reportagem. No entanto, somente o bom jornalista vai saber superar o ímpeto de aceitar a primeira oferta, e fugir da “filosofia Jaiminho”: pra evitar a fadiga.

Aí entra aquilo que nunca vai mudar, independentemente de quantas redes sociais ou ferramentas de crowdsourcing sejam criadas: a BOA APURAÇÃO. Os jornalista que ainda preservam o que chamamos de feeling sabe esperar e analisar cada personagem, cada especialista, para encontrar aqueles que realmente se encaixam no perfil de cada pauta.